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Monday, March 01, 2021

CANTO À KAM&MESA

Um dia proclamaremos vitória


E a Victória saberá

Que valeu a pena

A metade de pão

E meio copo de leite
(Quando houvesse)

Ou kapungu-pungu de todos os dias!

Um dia dormiremos sono

Sono profundo de morrer

E os patrões colherão

Patacas, Kwanzas e elogios

Sem pressa em controlar o relógio

Pois o sono terá um ninho!

Monday, November 02, 2020

UM CANTO A TEREMBEMBE

Depósito secular
Abraçando córregos de sempre
Lagoa de (10)encantos
Encantos meus
Feito cantos
Prantos alheios
Fundidos no sono perdido
No mosquito faminto e sanguinário
Da mamã sem chão
Reconquistado pela água
Oh, água nossa da (10)graça!

Vejo-te,
Terembembe,
Inunda e imunda
Águas fecais negras
Nauseabundas, venenosas
Há meses presas nos córregos
Novos da modernice sem perícia
Vieram libertadoras
Dos altos, chuvas divinas
Com cantos e prantos
E, quando te apartares deste manto
Lúgubre, verde darás
Vidas novas trarás
Pois, dele estrume farás
Para a enxada da camponesa faminta
Que anseia terra enxuta



Monday, September 21, 2020

LADEAND'OURO

Ânus limpidus
Correndo abaixo
Lidimus
Altas e rochosas montanhas
Lado a lado 
Carregando Porto e Gaia
E o Douro preguiçoso
Ao mar se dirige
Vaidoso, majestoso, dengoso
Navegante também

Sunday, August 30, 2020

COVID'ENJOATIVO

Porra!

Matem a arte, por favor!

Deixem-me descomprimir

É muito tédio

É muita pressão

É demasiada informação negativa

Tanta proibição 

Artistas sem inspiração (?)!

Se se inspiram no corona, não têm onde publicar

Se publicam, ninguém se deleita

Se procuram deleitar-se vem falta de leite

Até jornais apartam-se da crónica 

Ateliers fechados para expor

Salões encerrados para dançar

Canto restrito à Live da televisão

Estou enjoado

Pareço coronhado!

Monday, December 02, 2019

2TEMPOS

Muitos
Voluntariamente
Entregaram-se à luta
Para libertar o povo

Alguns
Forçosamente
Libertam-se do povo
Para juntar tostões

Friday, November 01, 2019

INSTANTE NOSSO


Mãos ao ar
Mão no teu peito e
Outra circunscrevendo teu busto 

Língua molhada é
Chuva lavando cidade prometida
Enxugando teu leito
E tu,
Cheirosa, dengosa
Ávida de lua-cheia
Mar intenso de prazer,
Balbuciando, tentando...
Quem é meu nome?
E quando a luz se vai
Quarto à meia-luz
Mundo reduzido a nós
Gemidos teus
Gemidos meus
Nosso instante
Imune de pudor
Não há dor
Não há temor
É apenas amor,
Na sua forma mais natural!

Thursday, September 05, 2019

REPOUSO EM KALUMBU

Repousa o sol.

Repousa o peixe moribundo,
destinado à boca faminta
do monandenge,
dançarino das esquinas,
de cueca rota pela escola
que teve por carteira uma pedra.

Repousa o negócio
da noite comprida,
preguiçosa e lenta
como o Kwanza em sua derradeira curva.

Repousa também
o bolso roto da tia pregoeira,
cansado de dar mais do que recebe.

Repousa a canoa,
de quilha voltada ao silêncio,
depois de medir caminhos de água.

Repousa o pescador exausto,
com os braços vencidos pelo remo
e os olhos gastos pela espera.

Repousam as ervas flutuantes,
guardando segredos do espelho líquido:

jingwingi, jingandu,
jimbiji nyi madiwanu.

Repousa o dongo.

Repousa o rio.

Thursday, August 01, 2019

UM MAR (D)E DESERTO

(Namibe)

Muito próximos,
Abraçando-se para vida e,
Às vezes, para a morte
Deserto,
Para mim, não são apenas dunas, areias e lagartos
Não são apenas arbustos espinhosos e secura...
É a cabra que deixa de trepar árvores sem folhas!

Monday, November 19, 2018

DE SOL EM SOL

Na roça colonial
Agora em mão nacional
Cresce a lavoura
Cresce a miséria
Trabalha, todo o dia, toda a hora
Cresce, apressada, a barriga do patrão
Vive o camponês abaixo de cão
Lavra de sol em sol
P'ro filho, barriga-cheia, nem mebendazol
Lavoura-recolha de chuva em chuva
Um quilo de fuba
Atendendo o estômago só
A paga do camponês
Uma tábua de peixe seco
Quando a jimboa não atende
É a fome que o surpreende
Na nova escravidão
Que engorda o ladro-patrão!

Wednesday, October 10, 2018

UM CHEIRO BOM

Cheira um cheiro bom
Pelas narinas sentido
É profundo, traz húmus
Promete Insumos
Alegra homens
Aves, plantas e demais viventes
É cheiro à chuva.
Choveu!

Saturday, September 01, 2018

NO LIBOLO, AMBOIM E NGULUNGU


Café maduro/
Avermelhado/
Bagos doces/
Reclamando cesto e o terreiro/
Para secar e escurecer/
Aguardando-lhe o descasque e torrefacção/
Aqui, sim/
Fica negro/
Na boca deixa amargo/
Amargura sentida pelo negro/
"Negro da cor do contratado"/

 

Tuesday, August 28, 2018

AGOSTO MORNO

Sem bandeiras ao vento desfraldadas,
Sem cóleras de turbas inflamadas,
Sem bebedeiras de euforia vã,
Sem trombetas rompendo a manhã.

Sem barulho de palcos improvisados,
Sem elogios em coro declamados,
Sem maratonas de fervor aparente,
Sem multidões seguindo a mesma corrente.

Sem esbulho da paz quotidiana,
Sem a pressa festiva e quase insana,
Sem o ruído dos dias ceremoniais
Que vestiam de festa os velhos ais.

Agosto chegou discreto à cidade;
Nem fogos, nem delírios, nem vaidade.
Passou sereno pelas ruas nuas,
Sob o silêncio das tardes e das luas.

E muitos, por costume ou nostalgia,
Procuraram o estrépito de outrora;
Mas encontraram uma nova hora,
Feita de calma e de monotonia.

Talvez falte o fervor que entontecia,
Talvez sobre a memória um véu se estenda;
Mas a quietude, quando enfim se assenda,
Também revela o preço da alegria.

E assim agosto segue o seu caminho,
Morno, sem cortejo nem clarim;
Mostrando que o tumulto tem um fim
E que o silêncio pode vir sozinho.

Afinal,

Sem bandeiras,
Sem cóleras,
Sem bebedeiras,
Sem barulho,
Sem esbulho,
Sem ruído,

É possível.

Afinal.

Tuesday, May 01, 2018

AMOR SEM PUDOR

Depois de
- 10encantos
- Canções ao vento
Já temos
- Amor sem pudor



Monday, April 09, 2018

BASTA ATENÇÃO

É banana-pão do quintalão,

Fruto honrado da estação;
Se quiser, há mais opção,
Para fartar a refeição.

Há jindungo e há mamão,
Maracujá, lima e limão;
Tudo brota deste chão,
Generoso em produção.

Pequenino, mas não em vão,
Certo fruto enche a mão;
Também cresce o agrião
E o tenro e verde feijão.

Junto à fresca hortelã,
Perfuma a manhã cristã;
E o sabor que daí vem
Faz bem ao corpo também.

A batateira, em expansão,
Já desafia o corrimão;
E a cajá-manga, em profusão,
Enche alegre o carro-de-mão.

Não se acanhe, meu irmão,
Nem duvide da lição;
Campo ou cidade, com atenção,

O alimento nasce da mão!

Monday, November 27, 2017

ENTRE DUNAS E LENÇÓIS

Dormi contigo, Rosa
Sim, dormi contigo
Não resisti ao teu corpo esguio de mulher madura
Dormi contigo, Rosa
Passeámos pelas dunas
Vimos gungas e gazelas
Como elas, corremos e trepámos montanhas
Até fazer-se noite rosa
Dormi contigo, Rosa
De volta à planície, colhi maboques
Doces, ímpares maboques
E tu, com gula de cozinheira,
Apenas tomates e cenoura
Dormi contigo, Rosa
Na imaginação de um sussurro ousado
No ouvido velho e cansado
Dormi contigo!

Sunday, October 01, 2017

INSTANTE INTIMO

Abdico
De meus desejos insanáveis
Deixo...
Que sobrevoes campos férteis
Deste mundo amável
Até atracares no porto
Dum homem afável
Que te apague desejos insaciáveis
Deste teu corpo inconsolável
Toca tua rumba
Mexe tua mbunda
Pesada kimbamba
Minha malamba
Aurora-alvorada
Vai antes que te arrependas!

Friday, September 08, 2017

POETA FARRAPO

POETA FARRAPO

Compus um verso, esqueci a dor,
Bebi um trago, sonhei amor;
Dormi um pouco, passou o ardor,
Mas despertou comigo o dissabor.

Voltou a vida, severa e nua,
Com sua longa procissão:
O pão ausente sobre a mesa crua,
E as contas sobre o coração.

Filhos por criar, males por vencer,
Patrões que exigem mais que o dever,
Amores fugidos a renascer,
E a eterna luta pelo viver.

Enquanto isso, canta o pavão,
Vestido de glória e vaidade;
Eu vou vestido de necessidade,
Remendando os panos da ilusão.

Mais um trago!

Que importa o troco?
Que importa o estorvo?

Se a vida me fez,

poeta e farrapo.

Monday, August 14, 2017

NO CORAÇÃO DA KISAMA


Do Citembo, fino como agulha
Corre apressado, engolindo outros angolares até Ndondo
Já largo, adulto e pesado, caminho abaixo, vem ele
Kwanza desliza preguiçoso, pachorrento, de amor repleto
Cantam-lhe ao ouvido aves fartas e sedentas

Bátegas rochosas ou lodosas no convívio
Lá dentro, águas incromas, ngandu e kakusu em festa, fazendo-lhe amáveis cócegas
Ao som de pedras-batuque, ngoma da Kisama, ama suas gentes
E o Kwanza segue vagaroso, de estilo cheio até Luanda.
Paragem capital

Tuesday, July 25, 2017

À PEDRA

Cantam alegres
Sempre em grupo
Jovens casadas
Senhoras já preparadas
Moças cobiçadas
Todas prendadas
Viúvas e sengadas

Cantam e contam
Malambas de vidas
Estórias passadas
Problemas solucionados
Assuntos almofadados
Outros tantos exorcizados

E o martelo-pau
Curvo e afável
Contra o milho um lacrau
Tuc, tuc, tuc
"Quando fui moer o milho,
Julgava ser para consumo e negócio...
Serviu para casamento dele com outra!"

Lições passadas sobre a pedra
Onde o milho não resiste ao pau e pedra
E elas cantam o que pensam
Fazendo farinha com destreza!


Publicado no Jornal CULTURA de 31/07/2017

Friday, June 02, 2017

MÃE: MINHA INVISUAL

Não me vês
Mas pelo cheiro me tens
Seguindo a voz vens
Assim como a cega toupeira
Nos sentidos refinada
Minha alegria de volta
Quando netos à volta
Voltares a ouvir
E vais, a toa, sorrir
Casa tua, toda
Família tua, toda
Cerca-te à volta
E gritas solta
Lembrando meu grito
Primeiro!