Porquê tu, ó Adi, de mármore e gelo,
Que em toda a vigília me deste o degredo,
No paço do sonho te fizeste braseiro,
E abrindo-te inteira, clamaste: “Eu te quero?!"
Fui eu o andejo, de viagem volvido,
Sem carta, sem nova, de pó revestido.
E tu, aparição no trilho do mercado,
Fizeste do sol meio-dia pecado.
Roubei-te dos lábios o mel proibido,
E tu mo tornaste em dobro, em gemido.
De mãos atreladas, febris, delirantes,
Ganhámos o leito em passos arquejantes.
Mentia a razão: “é só pensamento...”
Mas logo os vestidos caíram ao vento.
Da mesinha ao colchão, num salto lascivo,
Morreu o recato, asceu o instintivo.
Gulosamente te sorvi os clamores,
Entre ancas e coxas, colhi teus ardores.
Teu ventre era forja, teu seio era chama,
E eu, possuído, bradava teu nome na cama.
Com dentes e unhas riscávamos versos
Na pele suada, em acordes perversos.
Bebi-te os ais, o suor, o pecado,
Té ver-te em espasmos, o corpo arqueado.
Mas súbita, a tormenta, madrasta do gozo,
Rasgou-me dos sonhos o véu voluptuoso.
Despertei em tormenta, de hastes erguidas,
Com teu gosto na boca e as veias partidas.
Porquê tu, Adi,
Tão casta e negacionista,
Me deste em morfeu tua flor desfolhada?
Terminei o voo, porém vou condenado:
Trago-te na carne, de fogo marcado.

