POETA FARRAPO
Compus um verso, esqueci a dor,
Bebi um trago, sonhei amor;
Dormi um pouco, passou o ardor,
Mas despertou comigo o dissabor.
Voltou a vida, severa e nua,
Com sua longa procissão:
O pão ausente sobre a mesa crua,
E as contas sobre o coração.
Filhos por criar, males por vencer,
Patrões que exigem mais que o dever,
Amores fugidos a renascer,
E a eterna luta pelo viver.
Enquanto isso, canta o pavão,
Vestido de glória e vaidade;
Eu vou vestido de necessidade,
Remendando os panos da ilusão.
Mais um trago!
Que importa o troco?
Que importa o estorvo?
Se a vida me fez,