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Monday, April 09, 2018

BASTA ATENÇÃO

É banana-pão do quintalão,

Fruto honrado da estação;
Se quiser, há mais opção,
Para fartar a refeição.

Há jindungo e há mamão,
Maracujá, lima e limão;
Tudo brota deste chão,
Generoso em produção.

Pequenino, mas não em vão,
Certo fruto enche a mão;
Também cresce o agrião
E o tenro e verde feijão.

Junto à fresca hortelã,
Perfuma a manhã cristã;
E o sabor que daí vem
Faz bem ao corpo também.

A batateira, em expansão,
Já desafia o corrimão;
E a cajá-manga, em profusão,
Enche alegre o carro-de-mão.

Não se acanhe, meu irmão,
Nem duvide da lição;
Campo ou cidade, com atenção,

O alimento nasce da mão!

Monday, November 27, 2017

ENTRE DUNAS E LENÇÓIS

Dormi contigo, Rosa
Sim, dormi contigo
Não resisti ao teu corpo esguio de mulher madura
Dormi contigo, Rosa
Passeámos pelas dunas
Vimos gungas e gazelas
Como elas, corremos e trepámos montanhas
Até fazer-se noite rosa
Dormi contigo, Rosa
De volta à planície, colhi maboques
Doces, ímpares maboques
E tu, com gula de cozinheira,
Apenas tomates e cenoura
Dormi contigo, Rosa
Na imaginação de um sussurro ousado
No ouvido velho e cansado
Dormi contigo!

Sunday, October 01, 2017

INSTANTE INTIMO

Abdico
De meus desejos insanáveis
Deixo...
Que sobrevoes campos férteis
Deste mundo amável
Até atracares no porto
Dum homem afável
Que te apague desejos insaciáveis
Deste teu corpo inconsolável
Toca tua rumba
Mexe tua mbunda
Pesada kimbamba
Minha malamba
Aurora-alvorada
Vai antes que te arrependas!

Friday, September 08, 2017

POETA FARRAPO

POETA FARRAPO

Compus um verso, esqueci a dor,
Bebi um trago, sonhei amor;
Dormi um pouco, passou o ardor,
Mas despertou comigo o dissabor.

Voltou a vida, severa e nua,
Com sua longa procissão:
O pão ausente sobre a mesa crua,
E as contas sobre o coração.

Filhos por criar, males por vencer,
Patrões que exigem mais que o dever,
Amores fugidos a renascer,
E a eterna luta pelo viver.

Enquanto isso, canta o pavão,
Vestido de glória e vaidade;
Eu vou vestido de necessidade,
Remendando os panos da ilusão.

Mais um trago!

Que importa o troco?
Que importa o estorvo?

Se a vida me fez,

poeta e farrapo.

Monday, August 14, 2017

NO CORAÇÃO DA KISAMA


Do Citembo, fino como agulha
Corre apressado, engolindo outros angolares até Ndondo
Já largo, adulto e pesado, caminho abaixo, vem ele
Kwanza desliza preguiçoso, pachorrento, de amor repleto
Cantam-lhe ao ouvido aves fartas e sedentas

Bátegas rochosas ou lodosas no convívio
Lá dentro, águas incromas, ngandu e kakusu em festa, fazendo-lhe amáveis cócegas
Ao som de pedras-batuque, ngoma da Kisama, ama suas gentes
E o Kwanza segue vagaroso, de estilo cheio até Luanda.
Paragem capital

Tuesday, July 25, 2017

À PEDRA

Cantam alegres
Sempre em grupo
Jovens casadas
Senhoras já preparadas
Moças cobiçadas
Todas prendadas
Viúvas e sengadas

Cantam e contam
Malambas de vidas
Estórias passadas
Problemas solucionados
Assuntos almofadados
Outros tantos exorcizados

E o martelo-pau
Curvo e afável
Contra o milho um lacrau
Tuc, tuc, tuc
"Quando fui moer o milho,
Julgava ser para consumo e negócio...
Serviu para casamento dele com outra!"

Lições passadas sobre a pedra
Onde o milho não resiste ao pau e pedra
E elas cantam o que pensam
Fazendo farinha com destreza!


Publicado no Jornal CULTURA de 31/07/2017

Friday, June 02, 2017

MÃE: MINHA INVISUAL

Não me vês
Mas pelo cheiro me tens
Seguindo a voz vens
Assim como a cega toupeira
Nos sentidos refinada
Minha alegria de volta
Quando netos à volta
Voltares a ouvir
E vais, a toa, sorrir
Casa tua, toda
Família tua, toda
Cerca-te à volta
E gritas solta
Lembrando meu grito
Primeiro!

Wednesday, May 17, 2017

QUE PESADELO!

Sinto cheiro a fumo carregado
E negro
Arde capim seco
No espaço que separa sentidos
A estrada é larga e famosa que conduz ao norte-centro-sul
Deitado na cama gelada de kasimbu, vejo
Montículos vários
- Campos de batata ao longo da rodovia?!
- Não!

Cumprimos o chamamento e juntámos areia
Homens de farda respeitada
Pás nos ombros,

Desafiam pedras
Cumprem dever e aguardam conclusão da jornada
Mais adiante,
Montículos espalhados na negrura do asfalto
E, de novo, o negro do fumo que brota do capinzal
- Incendiaram a relva?!
Grita o despertador
Desperto desesperado
Foi pesadelo!

Wednesday, March 01, 2017

(D)EVOLUÇÃO DISCURSIVA

Ela e o seu
Ele e a sua
Eles e os seus
Equação acabada e exclusiva

Ela: os nossos
Ele: os nossos
Em um se fundiram todos

A tua e os nossos
Os meus e a tua
Tu e a tua, p'ra rua
Equação desfeita na briga-da-noite

P'ra fora
Há rua que vos aguarda
Já!
 
 
SC 2014

Tuesday, February 14, 2017

AMOR NA LUA

(e o poeta de Kuteka)
- Filha, quero ama-la!
Quê
A mala?
Não me atrapalhes, tenho sono!
E por que não levas a mochila, no roupeiro?
- Eu disse que vou amar-te!
Já te disse, poeta, não me lixes!
Se vais a Marte ou à Lua, fala-me amanhã!

Sunday, January 08, 2017

TAMBI KU BATA

Uma névoa sobre os céus do Libolo
Cá abaixo apenas gritos
- Aníbal?!
Um manto sobre nossos olhos
- Anibal?!
Uma montanha mais curta
- Metros retirados ao nosso alpendre intelectual
Ainda ontem conversávamos
- Sobre Libolo e outras coisas nossas
Escureceu o céu
- Já não é nosso o Aníbal
Tomai conta dele, ó céus
- É já vosso o Aníbal!

Tuesday, December 06, 2016

SATIRCÓPIH

Manhã cedo, iam domingueiros à igreja
(joelho dobrado)
Onde diziam: ser todos irmãos
Minutos depois, faziam-se à embala
(caçadeira ao ombro)
Onde rusgavam preto-objecto em vossas mãos
Assim construístes vossas nações
À custa de sangue e suor alheios
Dizeis hoje: "pretos-sem-noções"
Deixai-nos, não mutilem nossos anseios!
HIPÓCRITAS
 

Friday, November 18, 2016

NÃO SOU MAIS QUEM PENSAVAS


POETA

Eu?

Esquece-me

Fugiu-se de mim a gramática

A mesma que me serviu de escada

Ai, os verbos!

Já não averbo.

Até epitáfio para sobrinha finada

Os versos escapam

 

Forte

Eu?

Tão fraco, frívolo, oco

Só ócio...

Nem ombro pra meu irmão!

Thursday, September 01, 2016

AO ATAQUE SEM TEMOR!

Assalta-me amor

Assim mesmo, sem pudor
Vem firme
Com toda tua fome
Toda tua ira
Toda tua pressa
Toda tua te(n)são
Não me poupes o pescoço
Nem deixes destroço
Asfixia-me no teu beijo metal
Agarra-me num abraço letal
Adentra-me pelo bolso
Assalta-me amor maldoso
 
 
 
 
 
 

01.07.2016

 

Monday, August 01, 2016

ÀS VEZES

Apetece-me contar:
Quantas voltas dei para abraçar
Quantas lágrimas derramei para sorrir
Quantas lutas travei para me afirmar
Quantas solas consertei para beijar
Quantos passos recuei para pular
Às vezes
Apetece-me dizer:
- Filha, luta por mim,
Desforra as desgraças
Aproveita as venturas
Atola os petulantes
Mas é outro tempo...

Friday, June 03, 2016

À PRINCESA CANHANGA


Assim mesmo
Como amas as flores
Como abelhas mesmo...
Assim é esse amor

Paternal e imortal
Sempre presente
Mesmo na quilometragem da distância!

 
 

Sunday, May 01, 2016

CONTE(n)SÃO


 
Já fui locutor p'ra tua sede de notícias

Em tuas horas cultas fui poeta

Recitei Êça,

Camões e Vigário

Já fiz teatro,

Sátira e Comédia

Até colo emprestei

P'ra lágrimas que não provoquei

Chuva e frio enfrentei

P'ra te ver sorrir

P'ra saciar tuas fomes até exílio tentei

De repente,

Olho atento p'ro espelho,

Do cárcere me liberto

Reencontro-me e grito:

- Jamais!

Chega de patetices

Animador de tuas noites

Não sou mais!

Friday, April 01, 2016

DESAFIO

Descampado maltratado
Inertes comprados
Vezes várias surripiados
                          (à socapa)
Blocos que ergueram outros fogos
"Ó tio, ó tia, são alheios!"

Vieram homens
De braços firmes
Fortes e determinados
Barro e vargem movimentados
Cimento, pedra, ferro, suor
Não tarda
O mato ergue o rosto
Do descampado nova cara!

Tuesday, March 01, 2016

DIAS QUE CORREM

Gosto
De trabalhar
Adaptar-me a ambientes
                       quaisquer
Climas organizacionais
                      quaisquer
            quentes ou frios

Gostaria
De me não viciar,
               de novo
Remetendo-me ao trabalho e à madrinha solidão
                                                                 escrita
Meus melhores recantos
 Faltando de QVL

Monday, February 01, 2016

TORMENTO

É de manhã que mais sinto o tormento
Quando me liberto do ópio e do sono
Quando o pensador ligo
E ele, às voltas,
Vagueia, vagueia
Como canoa ancorada
Da qual se rema
Rema, rema, rema
Sem movimento
No mesmo lugar, eterno
E o pensador, em depressão,
Desiste de pensar
Mas o dia se aproxima
Há decisão a tomar,
Já tardia no calendário juliano
E ligo, de novo, o pensador
Que entra às voltas e desiste
Quanto tormento?!