Descampado maltratado
Inertes comprados
Vezes várias surripiados
(à socapa)
Blocos que ergueram outros fogos
"Ó tio, ó tia, são alheios!"
Vieram homens
De braços firmes
Fortes e determinados
Barro e vargem movimentados
Cimento, pedra, ferro, suor
Não tarda
O mato ergue o rosto
Do descampado nova cara!
Friday, April 01, 2016
Tuesday, March 01, 2016
DIAS QUE CORREM
Gosto
De trabalhar
Adaptar-me a ambientes
quaisquer
Climas organizacionais
quaisquer
quentes ou frios
Gostaria
De me não viciar,
de novo
Remetendo-me ao trabalho e à madrinha solidão
escrita
Meus melhores recantos
Faltando de QVL
De trabalhar
Adaptar-me a ambientes
quaisquer
Climas organizacionais
quaisquer
quentes ou frios
Gostaria
De me não viciar,
de novo
Remetendo-me ao trabalho e à madrinha solidão
escrita
Meus melhores recantos
Faltando de QVL
Monday, February 01, 2016
TORMENTO
É de manhã que mais sinto o tormento
Quando me liberto do ópio e do sono
Quando o pensador ligo
E ele, às voltas,
Vagueia, vagueia
Como canoa ancorada
Da qual se rema
Rema, rema, rema
Sem movimento
No mesmo lugar, eterno
E o pensador, em depressão,
Desiste de pensar
Mas o dia se aproxima
Há decisão a tomar,
Já tardia no calendário juliano
E ligo, de novo, o pensador
Que entra às voltas e desiste
Quanto tormento?!
Quando me liberto do ópio e do sono
Quando o pensador ligo
E ele, às voltas,
Vagueia, vagueia
Como canoa ancorada
Da qual se rema
Rema, rema, rema
Sem movimento
No mesmo lugar, eterno
E o pensador, em depressão,
Desiste de pensar
Mas o dia se aproxima
Há decisão a tomar,
Já tardia no calendário juliano
E ligo, de novo, o pensador
Que entra às voltas e desiste
Quanto tormento?!
Friday, January 01, 2016
GRITO RASTEIRO
Brigam herbívoros
Pelejam ébrios no capim rasteiro
Outrora levado ao estômago
Jaz pés, a baixo
Inútil, triturado
E brigam valentes
Poderosos no pensar
Vargem rasteira destroem sem cessar
Até que poeira apenas os cerca
É sede, é fome
Relva escassa,
Pisoteada ao gosto da rebeldia gratuita
Implora-se, suplica-se
Mas ela, relva fresquinha,
Verdinha, ressuscita noutra margem
Noutra vida parida da lassidão do tempo
E ressurgem sorrisos distantes
Enquanto herbívoros famintos padecem...
In Canções ao vento
Tuesday, December 01, 2015
MANO DÉCIMO
Mona-a-ngamba de nascença
Cedo procurou libertar-se
E conseguiu
Tempos depois
Na moda das tarrafas extra-bairrais
A mona-a-ngamba voltou sem ais
Agredido na honra
Espoliado no suor
Chifrado no sentimento
Jazz Mano Décimo
Ano dez no ralo
Refúgio no submundo é tenda
Há anos trocada pela mansão
urbana
Cima a baixo percorre calçadão
E recupera o amigo papelão
Há anos substituído p'lo cómodo
colchão
E sobrevive, Mano Décimo
Chifrudo
Sangrento
Esvaindo-se por todos poros
- Bebeu do veneno
Proclama a vilã
- Engordou a cobra com suor
Dispara condoída a irmã
Sem ópio que dor amortece
Nem frasco que tudo esquece
Vive e quase enlouquece
Mano Décimo caminha a leste
Do Kuteka à Irlanda
Carregando o peso do nada
E, aos poucos, desfalece,
Mano Décimo.
In Canções ao vento
Sunday, November 01, 2015
ELES
Aos magotes
Dias e noites
Fingem-se satisfeitos
Quando é outra
A dama de suas vidas
E trocam gritos por silêncios
Vociferantes
Sim
Silêncios como faca do talheiro
Na escuridão dos carcereiros
Na ignorância dos sensores
Na liberdade da palavra
Lançam vozes eternas
OS POETAS
Dias e noites
Fingem-se satisfeitos
Quando é outra
A dama de suas vidas
E trocam gritos por silêncios
Vociferantes
Sim
Silêncios como faca do talheiro
Na escuridão dos carcereiros
Na ignorância dos sensores
Na liberdade da palavra
Lançam vozes eternas
OS POETAS
Thursday, October 01, 2015
TUDO É DOR
Brigas frívolas
Silêncio abrigo
A saudade dos de casa
Das árvores, da Katumbu, do António e do Phande
Doi tudo
Pés, cabeça, abdómen e cervical
Até a fome doi
Se me liberto da dor!
Silêncio abrigo
A saudade dos de casa
Das árvores, da Katumbu, do António e do Phande
Doi tudo
Pés, cabeça, abdómen e cervical
Até a fome doi
Se me liberto da dor!
Tuesday, September 01, 2015
TORRA
Hoje vou torrar
Amanhã vou kubar
Manhã inteira
Mboa, não dês bandeira
Já expliquei a dika
Terminei a bumba
Sábado não vou amarrar
Domingo vou exercitar
Amanhã vou kubar
Manhã inteira
Mboa, não dês bandeira
Já expliquei a dika
Terminei a bumba
Sábado não vou amarrar
Domingo vou exercitar
Saturday, August 15, 2015
A CANETA E A CANECA
Desisti da caneta
É agora a caneca
A caneca...
Que consolo?!.
É neta jogada no colo
Ou brincando na careca
Ó caneca!
Teus gritos já me soam à sineta
Que fazer desta praceta
Sem tinta na caneta
Para mais uma croniqueta?
E calculo
Quilómetros por andar até Kakolu
Caneta e caneca na busca da soneca
Desperto sem consolo
Vou embriagar-me com caneta!
É agora a caneca
A caneca...
Que consolo?!.
É neta jogada no colo
Ou brincando na careca
Ó caneca!
Teus gritos já me soam à sineta
Que fazer desta praceta
Sem tinta na caneta
Para mais uma croniqueta?
E calculo
Quilómetros por andar até Kakolu
Caneta e caneca na busca da soneca
Desperto sem consolo
Vou embriagar-me com caneta!
Saturday, August 01, 2015
CANÇÃO DO TI-CHICO
Haveres teus
Haveres nossos
Haveres meus
Contigo me juntei na pobreza
A mim pertence a riqueza
Pra ti dou a despesa
Sai, sem haver levar
Vai, desiste 'té morrer!
- Abdico
Sem registo de tudo abdico!
Dia de partida, estrada longa
Para curta cilindrada
- Amor, é de arrependimento que te conto
Tudo é teu em todos os cantos
Casas, carros e os encantos!
Na estrada, Ti-Chico, sempre em prantos:
- Amo o labor
Tu o meu suor!
Haveres nossos
Haveres meus
Contigo me juntei na pobreza
A mim pertence a riqueza
Pra ti dou a despesa
Sai, sem haver levar
Vai, desiste 'té morrer!
- Abdico
Sem registo de tudo abdico!
Dia de partida, estrada longa
Para curta cilindrada
- Amor, é de arrependimento que te conto
Tudo é teu em todos os cantos
Casas, carros e os encantos!
Na estrada, Ti-Chico, sempre em prantos:
- Amo o labor
Tu o meu suor!
Wednesday, July 15, 2015
A MEIO DO KASIMBU
Queimadas e caçadas
No Libolo, sempre casadas
Já participei de muitas, ainda kanuku
Manhã cedo, afiar flechas e catanas,
Erguer corda e zagaia
Cães já famintos, para que não fujam da presa,
Tratados como ouro, antes da caçada
Depois, no repasto dos donos, se contentam com bola seca de funji
E ossos (des)conseguidos pelos dentes envelhecidos do mwadyakime
As caçadas e as queimadas,
Sempre casadas com fumo,
Capim alto ardendo, cinza preta, kwata,-kwata,
Agarra para os aportuguesados que levam ralhetes e cassetetes
Às caçadas e as queimadas, Doutor não vai
Fica na cidade, mas sente cheiro do capim e do produto da caçada
E quem se deleita é o filósofo de esquina,
O calcinhas, meio indígena, meio assimilado
Vai à caçada de roupa completa
Voltando sujo-amarrotado, quando não roto-descalço
É a meio do kasimbu!
Monday, June 15, 2015
LETRAS MILAGROSAS
A poesia supera a dor
Leva-nos ao abstrato
Faz-nos sugar os mares
E os céus apalpar
Com ela se sonha
Mesmo acordado se sonha
Mergulhado na poesia
Isso sentirá o capim
Quando deixar de ser trampolim
Para ruminantes e manatins!
In Canções ao vento
Monday, June 01, 2015
BRISA
Essa tua cordilheira, Isa
Já me lembra aquel´algibeira
Abandonada na estrada, à beira
São torres Pisa
Esse teu
peito, Isa
Eterno caderno do amor moderno
Convida
p´ro desenho
Minha
vertical caneta
Que
percorre teus desejos sequiosos
Aguardando
por tinta
Expelida
pela minha caneta
Nesse teu peito,
Isa,
Empresto minha caneta
Para rabiscos na tua
camisa
Até gritarias...
Até à chegada da
brisa!
Monday, May 25, 2015
QUINTA CANÇÃO (A MAIO)
Que trazes pra mim, ó Maio?
Não te chega este meu 41º Maio?
E 8º do homónimo filho mais teu que meu?
Terei sossego na lavoura e na choupana?
Se vai amainar a tempestade que arrasa minha cidade?
Param a chuva torrencial, trovoadas e raios?
Raios que o partam!
E, olho pra ti, ó Maio da minha progenitura
Num momento em que mais me vêm interrogações à mente
Espero recitar, pacientemente
Quando de mim te fartares
- E tudo Maio deixou!
Ou tudo tu levarás?
Não te chega este meu 41º Maio?
E 8º do homónimo filho mais teu que meu?
Terei sossego na lavoura e na choupana?
Se vai amainar a tempestade que arrasa minha cidade?
Param a chuva torrencial, trovoadas e raios?
Raios que o partam!
E, olho pra ti, ó Maio da minha progenitura
Num momento em que mais me vêm interrogações à mente
Espero recitar, pacientemente
Quando de mim te fartares
- E tudo Maio deixou!
Ou tudo tu levarás?
Friday, May 01, 2015
SENTINDO-ME ASSIM
Há chuva
Há tempestadeHá raios e trovões
Há dor estranha dentro de mim
Há medo
Há força tambémHá frio e calafrios
Há também esperança dentro de mim
Há angústia obtusa
Há temor mesquinho
Há incertezas…
Há também em mim emergentes desafios.
Wednesday, April 01, 2015
PASSANTE
É como um restaurante
Seu back office não visite
Para que imundície não destape
E sua fome não afugente!
Mulher anunciante
De longe elegante
Que se apregoa gostosa, caliente...
É cozinha de restaurante!
Mulher apelativa a transeunte
Histórias fecundas no reporte
Corre água turva à jusante
Delicie-se, não pergunte!
Como internet é o homem
Moderno, de liso abdómen
Seu telefone não conecte
Para não ver serpente!
Seu back office não visite
Para que imundície não destape
E sua fome não afugente!
Mulher anunciante
De longe elegante
Que se apregoa gostosa, caliente...
É cozinha de restaurante!
Mulher apelativa a transeunte
Histórias fecundas no reporte
Corre água turva à jusante
Delicie-se, não pergunte!
Como internet é o homem
Moderno, de liso abdómen
Seu telefone não conecte
Para não ver serpente!
Sunday, March 01, 2015
A HORA DO GRITO
Cinco Litros
Nasceu distante
No tempo e na geografia
Cinco Litros
P’ro Nordeste desterrado
Num pseudo-contrato, escravatura moderna
luz-e-tana
Cinco Litros
Sonho de liberdade alimentou
E caçadeira para o ataque sonhou
Dia de pagamento,
Cinco Litros,
Mala do salário surripiou
Padre pidesco colono contratou
Mulher domingueira segredo soltou
Cinco litros na cadeia parou
Estropiado,
Pela roda da Bed Ford
Cinco Litros da vida se despediu
Ainda corre fama
Cinco Litros é herói
Na Lunda e na vida de injustiçados!
Obs: Versificação de uma narrativa do nordeste angolano. Faz parte da Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho Vol. VI, Chiado Editora, Pt, 21.03.2015.
Sunday, February 01, 2015
EMPURRADA
Caminha
Passo apressado pela rua
Desvia
Homem descalço na grua
Enfia-se
No beco agulhado da casa que
sonhou sua
Envia
Olhar aguçado para a lua
Repara
No reflexo espelhado que vai nua
Engole
Licor drogado que depressa actua
Conclui
No telhado da noite a vida
continua…
Thursday, January 01, 2015
DE BAIXO DA PONTE
Homens de longe
Sem moral nem norte
Destilam ureia na areia
Distância rogando boleia
É a ponte que todos rodeia
Mulheres talhadas na vida
Emprego fecundo na via
Desfilam carnudas vadias
Debaixo de ponte vazia
Quem és tu mulher-a-dias?
Jovens temperados na rua
Sem sorte perdida crua
Disputam sobras
Procuram sombras
Buscam sossego roubado
Pela agua infiltrada no telhado
Escapada da ponte ruída
Crianças da escola destruída
Sepultam sonhos
Riscando na ponte desenhos
Em troca, largos desdéns
Mas a vida corre debaixo da ponte!
Sem moral nem norte
Destilam ureia na areia
Distância rogando boleia
É a ponte que todos rodeia
Mulheres talhadas na vida
Emprego fecundo na via
Desfilam carnudas vadias
Debaixo de ponte vazia
Quem és tu mulher-a-dias?
Jovens temperados na rua
Sem sorte perdida crua
Disputam sobras
Procuram sombras
Buscam sossego roubado
Pela agua infiltrada no telhado
Escapada da ponte ruída
Crianças da escola destruída
Sepultam sonhos
Riscando na ponte desenhos
Em troca, largos desdéns
Mas a vida corre debaixo da ponte!
Monday, December 01, 2014
O PÃO QUE O MAR REJEITA
Vem da baixa
Do Cazenga, na caixa
Vem de Viana
Com pseud'homens e levianas
Vem de Centralidades
Na ignorância de todas idades
Vem dos ricos
Despidos de princípios
É saco
É sobra de pincho
É frasco
É garrafa do mata-bicho
Recolhe o lixo
Senão te lixo
Antes que o mar vire bicho!
Do Cazenga, na caixa
Vem de Viana
Com pseud'homens e levianas
Vem de Centralidades
Na ignorância de todas idades
Vem dos ricos
Despidos de princípios
É saco
É sobra de pincho
É frasco
É garrafa do mata-bicho
Recolhe o lixo
Senão te lixo
Antes que o mar vire bicho!
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