Wednesday, July 15, 2015
A MEIO DO KASIMBU
Queimadas e caçadas
No Libolo, sempre casadas
Já participei de muitas, ainda kanuku
Manhã cedo, afiar flechas e catanas,
Erguer corda e zagaia
Cães já famintos, para que não fujam da presa,
Tratados como ouro, antes da caçada
Depois, no repasto dos donos, se contentam com bola seca de funji
E ossos (des)conseguidos pelos dentes envelhecidos do mwadyakime
As caçadas e as queimadas,
Sempre casadas com fumo,
Capim alto ardendo, cinza preta, kwata,-kwata,
Agarra para os aportuguesados que levam ralhetes e cassetetes
Às caçadas e as queimadas, Doutor não vai
Fica na cidade, mas sente cheiro do capim e do produto da caçada
E quem se deleita é o filósofo de esquina,
O calcinhas, meio indígena, meio assimilado
Vai à caçada de roupa completa
Voltando sujo-amarrotado, quando não roto-descalço
É a meio do kasimbu!
Monday, June 15, 2015
LETRAS MILAGROSAS
A poesia supera a dor
Leva-nos ao abstrato
Faz-nos sugar os mares
E os céus apalpar
Com ela se sonha
Mesmo acordado se sonha
Mergulhado na poesia
Isso sentirá o capim
Quando deixar de ser trampolim
Para ruminantes e manatins!
In Canções ao vento
Monday, June 01, 2015
BRISA
Essa tua cordilheira, Isa
Já me lembra aquel´algibeira
Abandonada na estrada, à beira
São torres Pisa
Esse teu
peito, Isa
Eterno caderno do amor moderno
Convida
p´ro desenho
Minha
vertical caneta
Que
percorre teus desejos sequiosos
Aguardando
por tinta
Expelida
pela minha caneta
Nesse teu peito,
Isa,
Empresto minha caneta
Para rabiscos na tua
camisa
Até gritarias...
Até à chegada da
brisa!
Monday, May 25, 2015
QUINTA CANÇÃO (A MAIO)
Que trazes pra mim, ó Maio?
Não te chega este meu 41º Maio?
E 8º do homónimo filho mais teu que meu?
Terei sossego na lavoura e na choupana?
Se vai amainar a tempestade que arrasa minha cidade?
Param a chuva torrencial, trovoadas e raios?
Raios que o partam!
E, olho pra ti, ó Maio da minha progenitura
Num momento em que mais me vêm interrogações à mente
Espero recitar, pacientemente
Quando de mim te fartares
- E tudo Maio deixou!
Ou tudo tu levarás?
Não te chega este meu 41º Maio?
E 8º do homónimo filho mais teu que meu?
Terei sossego na lavoura e na choupana?
Se vai amainar a tempestade que arrasa minha cidade?
Param a chuva torrencial, trovoadas e raios?
Raios que o partam!
E, olho pra ti, ó Maio da minha progenitura
Num momento em que mais me vêm interrogações à mente
Espero recitar, pacientemente
Quando de mim te fartares
- E tudo Maio deixou!
Ou tudo tu levarás?
Friday, May 01, 2015
SENTINDO-ME ASSIM
Há chuva
Há tempestadeHá raios e trovões
Há dor estranha dentro de mim
Há medo
Há força tambémHá frio e calafrios
Há também esperança dentro de mim
Há angústia obtusa
Há temor mesquinho
Há incertezas…
Há também em mim emergentes desafios.
Wednesday, April 01, 2015
PASSANTE
É como um restaurante
Seu back office não visite
Para que imundície não destape
E sua fome não afugente!
Mulher anunciante
De longe elegante
Que se apregoa gostosa, caliente...
É cozinha de restaurante!
Mulher apelativa a transeunte
Histórias fecundas no reporte
Corre água turva à jusante
Delicie-se, não pergunte!
Como internet é o homem
Moderno, de liso abdómen
Seu telefone não conecte
Para não ver serpente!
Seu back office não visite
Para que imundície não destape
E sua fome não afugente!
Mulher anunciante
De longe elegante
Que se apregoa gostosa, caliente...
É cozinha de restaurante!
Mulher apelativa a transeunte
Histórias fecundas no reporte
Corre água turva à jusante
Delicie-se, não pergunte!
Como internet é o homem
Moderno, de liso abdómen
Seu telefone não conecte
Para não ver serpente!
Sunday, March 01, 2015
A HORA DO GRITO
Cinco Litros
Nasceu distante
No tempo e na geografia
Cinco Litros
P’ro Nordeste desterrado
Num pseudo-contrato, escravatura moderna
luz-e-tana
Cinco Litros
Sonho de liberdade alimentou
E caçadeira para o ataque sonhou
Dia de pagamento,
Cinco Litros,
Mala do salário surripiou
Padre pidesco colono contratou
Mulher domingueira segredo soltou
Cinco litros na cadeia parou
Estropiado,
Pela roda da Bed Ford
Cinco Litros da vida se despediu
Ainda corre fama
Cinco Litros é herói
Na Lunda e na vida de injustiçados!
Obs: Versificação de uma narrativa do nordeste angolano. Faz parte da Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho Vol. VI, Chiado Editora, Pt, 21.03.2015.
Sunday, February 01, 2015
EMPURRADA
Caminha
Passo apressado pela rua
Desvia
Homem descalço na grua
Enfia-se
No beco agulhado da casa que
sonhou sua
Envia
Olhar aguçado para a lua
Repara
No reflexo espelhado que vai nua
Engole
Licor drogado que depressa actua
Conclui
No telhado da noite a vida
continua…
Thursday, January 01, 2015
DE BAIXO DA PONTE
Homens de longe
Sem moral nem norte
Destilam ureia na areia
Distância rogando boleia
É a ponte que todos rodeia
Mulheres talhadas na vida
Emprego fecundo na via
Desfilam carnudas vadias
Debaixo de ponte vazia
Quem és tu mulher-a-dias?
Jovens temperados na rua
Sem sorte perdida crua
Disputam sobras
Procuram sombras
Buscam sossego roubado
Pela agua infiltrada no telhado
Escapada da ponte ruída
Crianças da escola destruída
Sepultam sonhos
Riscando na ponte desenhos
Em troca, largos desdéns
Mas a vida corre debaixo da ponte!
Sem moral nem norte
Destilam ureia na areia
Distância rogando boleia
É a ponte que todos rodeia
Mulheres talhadas na vida
Emprego fecundo na via
Desfilam carnudas vadias
Debaixo de ponte vazia
Quem és tu mulher-a-dias?
Jovens temperados na rua
Sem sorte perdida crua
Disputam sobras
Procuram sombras
Buscam sossego roubado
Pela agua infiltrada no telhado
Escapada da ponte ruída
Crianças da escola destruída
Sepultam sonhos
Riscando na ponte desenhos
Em troca, largos desdéns
Mas a vida corre debaixo da ponte!
Monday, December 01, 2014
O PÃO QUE O MAR REJEITA
Vem da baixa
Do Cazenga, na caixa
Vem de Viana
Com pseud'homens e levianas
Vem de Centralidades
Na ignorância de todas idades
Vem dos ricos
Despidos de princípios
É saco
É sobra de pincho
É frasco
É garrafa do mata-bicho
Recolhe o lixo
Senão te lixo
Antes que o mar vire bicho!
Do Cazenga, na caixa
Vem de Viana
Com pseud'homens e levianas
Vem de Centralidades
Na ignorância de todas idades
Vem dos ricos
Despidos de princípios
É saco
É sobra de pincho
É frasco
É garrafa do mata-bicho
Recolhe o lixo
Senão te lixo
Antes que o mar vire bicho!
Saturday, November 01, 2014
RETRATO DELA
Sem adornos é um vazio
Vaso sem flores e pousio
Carecendo de implante e regadio
Atavios que despertam o elogio
Diferente é a mukubal
Urbana ou rural
Mulher sempre natural
Um vaso escultural!
Wednesday, October 01, 2014
DISCURSO NOCTURNO
Sou louca
Sou perdição
Dou corpo
Dou atenção
Sozinha sinto desejos
Acompanhada sofro de tédios
Sou gelo
Sou foguetão
Paga-me sexo
Mas não me cobres coração!
Em noite fria viro cobertor
Em dia tropical sou refrigerador
Partilho beijos
Mas é dinheiro que desejo!
Sou perdição
Dou corpo
Dou atenção
Sozinha sinto desejos
Acompanhada sofro de tédios
Sou gelo
Sou foguetão
Paga-me sexo
Mas não me cobres coração!
Em noite fria viro cobertor
Em dia tropical sou refrigerador
Partilho beijos
Mas é dinheiro que desejo!
Monday, September 01, 2014
CARGA PESADA
Na
imaginação,
Teus
fluidos me invadem o rostoE, como ganancioso cão
Lambuzo-me no teu entreposto
Vácuo,
tormento e torneira de desgosto
Sinto
quando de ti me desencostoSukwama!
Grito
sufocado pelo prazer do fogo
Que
meus cacimbos depressa afugentaE, grito: coma-me logo!
Que é teu o lago que me apascenta
E, junto graxas às nossas engrenagens,
Nesta floresta húmida, com ramagens
Que me fermentam gingingas na barriga
Quando aprisionado na válvula da tua briga!
Friday, August 01, 2014
OKAVANGO
Repousam riquezas em lagos adormecidos
Grutas e caminhos, há muito esquecidos
Hoje desfiladeiros para caminhantes desconhecidos
Catadores de belezas e tesouros em prados estendidos
A sol e nuvens nunca guarnecidos
Não há chuva que os deixe aborrecidos
Lá estão eles: sempre convencidos
Embora de calor estarrecidos
Juntam moedas e nas algibeiras comprimidos
Doenças afugentam com impregnados tecidos
São turistas de longe saídos!
Grutas e caminhos, há muito esquecidos
Hoje desfiladeiros para caminhantes desconhecidos
Catadores de belezas e tesouros em prados estendidos
A sol e nuvens nunca guarnecidos
Não há chuva que os deixe aborrecidos
Lá estão eles: sempre convencidos
Embora de calor estarrecidos
Juntam moedas e nas algibeiras comprimidos
Doenças afugentam com impregnados tecidos
São turistas de longe saídos!
Wednesday, July 30, 2014
NO MEU IMAGINÁRIO
Ei-la sorridente
Vestida de preto, cinza e branco
Brilha ao sol de Julho minguante
Na cabeça, trança esperança
Filho kasula às costas
A filha puxa pela mão
A caminho do sol
Seu rumo é sul
É norte, é leste
É oeste, são ilhas também
Trilham quilómetros
Partilham conhecimentos
Mostra caminhos e alimentam sonhos
Quem é ela?
- Mulher africana!
In: Amor sem Pudor
Vestida de preto, cinza e branco
Brilha ao sol de Julho minguante
Na cabeça, trança esperança
Filho kasula às costas
A filha puxa pela mão
A caminho do sol
Seu rumo é sul
É norte, é leste
É oeste, são ilhas também
Trilham quilómetros
Partilham conhecimentos
Mostra caminhos e alimentam sonhos
Quem é ela?
- Mulher africana!
In: Amor sem Pudor
Tuesday, July 01, 2014
IDADE DE CONDOR
IDADE (DE) CONDOR
Todos dias uma febrezinha
Impedindo degustar saborosas febrinhas
Aqui e acolá uma dorzinha
Ao acordar e adormecer outra queixinha
Lá vai o Condor
Levando com dor
Essa vida já sem vigor.
Todos dias uma febrezinha
Impedindo degustar saborosas febrinhas
Aqui e acolá uma dorzinha
Ao acordar e adormecer outra queixinha
Lá vai o Condor
Levando com dor
Essa vida já sem vigor.
Sunday, June 01, 2014
GOLFO VELHO
GOLFO VELHO
Micro clima
Escarpado baixo a cima
Esquia, fria, berço de toqueias...
Santopeias também nascem como trepadeiras
Golfo Velho
Frio crescente
Na peleja até me ajoelho
Com esta minha lenha minguante
Micro clima
Escarpado baixo a cima
Esquia, fria, berço de toqueias...
Santopeias também nascem como trepadeiras
Golfo Velho
Frio crescente
Na peleja até me ajoelho
Com esta minha lenha minguante
Golfo
velho
Em noites devassas, escassas
No ar fumaças, esperanças idosas
Macho reformado, cansado, arrependido
Na quilometragem do golfo envelhecido...
Em noites devassas, escassas
No ar fumaças, esperanças idosas
Macho reformado, cansado, arrependido
Na quilometragem do golfo envelhecido...
In: Amor sem Pudor
Sunday, May 25, 2014
RENDIÇÃO
Moeram-se os dentes
De tanto moer
Perderam-se as forças
De tanto mover
Tua cintura
Não mais farfalho
Em tua quentura
Não mais mergulho...
Enterrei meu machado, meu orgulho
Apenas como-te com os olhos!
In: Amor sem Pudor
Thursday, May 01, 2014
ÁGUA NA BOCA
Deitado na minha kibaka
Tu apenas nos meus sonhosDesfilando longa e bela
(nos meus braços)
E percorro tuas distâncias
(milímetro a milímetro)
Meu queixo apalpando buzinas peitorais
Com a direita alavanco tuas velocidades
Entre pernas, é minha língua quem conduz!
In: Amor sem Pudor
Tuesday, April 01, 2014
SALAFRÁRIO
Estás hoje prostrado no meu travesseiro
Fingindo amor verdadeiro
Descobri que tudo que dizes é brejeiro
Cansei-me, interesseiro
Anda-te daí
Já não mora aqui
A mulher que chorou por ti
Desisti!
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