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Sunday, March 01, 2015

A HORA DO GRITO


Cinco Litros

Nasceu distante

No tempo e na geografia

 Cinco Litros

P’ro Nordeste desterrado

Num pseudo-contrato, escravatura moderna luz-e-tana

 Cinco Litros

Sonho de liberdade alimentou

E caçadeira para o ataque sonhou

 Dia de pagamento,

Cinco Litros,

Mala do salário surripiou

 Padre pidesco colono contratou

Mulher domingueira segredo soltou

Cinco litros na cadeia parou

 Estropiado,

Pela roda da Bed Ford

Cinco Litros da vida se despediu

 Ainda corre fama

Cinco Litros é herói

Na Lunda e na vida de injustiçados!


Obs: Versificação de uma narrativa do nordeste angolano. Faz parte da Antologia de Poesia Contemporânea Entre o Sono e o Sonho Vol. VI, Chiado Editora, Pt, 21.03.2015. 

Sunday, February 01, 2015

EMPURRADA


Caminha

Passo apressado pela rua

Desvia

Homem descalço na grua

Enfia-se

No beco agulhado da casa que sonhou sua

Envia

Olhar aguçado para a lua

Repara

No reflexo espelhado que vai nua

Engole

Licor drogado que depressa actua

Conclui

No telhado da noite a vida continua…

Thursday, January 01, 2015

DE BAIXO DA PONTE

Homens de longe
Sem moral nem norte
Destilam ureia na areia
Distância rogando boleia
É a ponte que todos rodeia

Mulheres talhadas na vida
Emprego fecundo na via
Desfilam carnudas vadias
Debaixo de ponte vazia
Quem és tu mulher-a-dias?

Jovens temperados na rua
Sem sorte perdida crua
Disputam sobras
Procuram sombras
Buscam sossego roubado
Pela agua infiltrada no telhado
Escapada da ponte ruída

Crianças da escola destruída
Sepultam sonhos
Riscando na ponte desenhos
Em troca, largos desdéns
Mas a vida corre debaixo da ponte!

Monday, December 01, 2014

O PÃO QUE O MAR REJEITA

Vem da baixa
Do Cazenga, na caixa
Vem de Viana
Com pseud'homens e levianas
Vem de Centralidades
Na ignorância de todas idades
Vem dos ricos
Despidos de princípios

É saco
É sobra de pincho
É frasco
É garrafa do mata-bicho
Recolhe o lixo
Senão te lixo
Antes que o mar vire bicho!

Saturday, November 01, 2014

RETRATO DELA


Sem adornos é um vazio
Vaso sem flores e pousio
Carecendo de implante e regadio
Atavios que despertam o elogio

Diferente é a mukubal
Urbana ou rural
Mulher sempre natural
Um vaso escultural!

Wednesday, October 01, 2014

DISCURSO NOCTURNO

Sou louca
Sou perdição
Dou corpo
Dou atenção
Sozinha sinto desejos
Acompanhada sofro de tédios
Sou gelo
Sou foguetão

Paga-me sexo
Mas não me cobres coração!
Em noite fria viro cobertor
Em dia tropical sou refrigerador
Partilho beijos
Mas é dinheiro que desejo!
 

Monday, September 01, 2014

CARGA PESADA


Na imaginação,
Teus fluidos me invadem o rosto
E, como ganancioso cão
Lambuzo-me no teu entreposto

Vácuo, tormento e torneira de desgosto
Sinto quando de ti me desencosto
Sukwama!

Grito sufocado pelo prazer do fogo
Que meus cacimbos depressa afugenta
E, grito: coma-me logo!
Que é teu o lago que me apascenta

E, junto graxas às nossas engrenagens,
Nesta floresta húmida, com ramagens
Que me fermentam gingingas na barriga
Quando aprisionado na válvula da tua briga!

Friday, August 01, 2014

OKAVANGO

Repousam riquezas em lagos adormecidos
Grutas e caminhos, há muito esquecidos
Hoje  desfiladeiros para caminhantes desconhecidos
Catadores de belezas e tesouros em prados estendidos
A sol e nuvens nunca guarnecidos

Não há chuva que os deixe aborrecidos
Lá estão eles: sempre convencidos
Embora de calor estarrecidos
Juntam moedas e nas algibeiras comprimidos
Doenças afugentam com impregnados tecidos
São turistas de longe saídos!

Wednesday, July 30, 2014

NO MEU IMAGINÁRIO

Ei-la sorridente
Vestida de preto, cinza e branco
Brilha ao sol de Julho minguante
Na cabeça, trança esperança

Filho kasula às costas
A filha puxa pela mão
A caminho do sol
Seu rumo é sul
É norte, é leste
É oeste, são ilhas também

Trilham quilómetros
Partilham conhecimentos
Mostra caminhos e alimentam sonhos
Quem é ela?
- Mulher africana!

In: Amor sem Pudor

Tuesday, July 01, 2014

IDADE DE CONDOR


IDADE (DE) CONDOR

Todos dias uma febrezinha
Impedindo degustar saborosas febrinhas
Aqui e acolá uma dorzinha
Ao acordar e adormecer outra queixinha
Lá vai o Condor
Levando com dor
Essa vida já sem vigor.
 
 
In: Amor sem Pudor

Sunday, June 01, 2014

GOLFO VELHO


GOLFO VELHO

Micro clima
Escarpado baixo a cima
Esquia, fria, berço de toqueias...
Santopeias também nascem como trepadeiras

Golfo Velho
Frio crescente
Na peleja até me ajoelho
Com esta minha lenha minguante

Golfo velho
Em noites devassas, escassas
No ar fumaças, esperanças idosas
Macho reformado, cansado, arrependido
Na quilometragem do golfo envelhecido...

In: Amor sem Pudor

Sunday, May 25, 2014

RENDIÇÃO


Moeram-se os dentes
De tanto moer
Perderam-se as forças
De tanto mover
Tua cintura
Não mais farfalho
Em tua quentura
Não mais mergulho...
Enterrei meu machado, meu orgulho
Apenas como-te com os olhos!


In: Amor sem Pudor

Thursday, May 01, 2014

ÁGUA NA BOCA


Deitado na minha kibaka
Tu apenas nos meus sonhos
Desfilando longa e bela
        (nos meus braços)

E percorro tuas distâncias
     (milímetro a milímetro)

Meu queixo apalpando buzinas peitorais
Com a direita alavanco tuas velocidades
Entre pernas, é minha língua quem conduz!

 

In: Amor sem Pudor

Tuesday, April 01, 2014

SALAFRÁRIO


Estás hoje prostrado no meu travesseiro
Fingindo amor verdadeiro
Descobri que tudo que dizes é brejeiro
Cansei-me, interesseiro
Anda-te daí
Já não mora aqui
A mulher que chorou por ti
Desisti!

Saturday, March 08, 2014

SORRISO A ANGOLANA

Nesta cama que me acolhe
No consagrado teu dia

Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,

Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!

Tuesday, February 11, 2014

VOCÊ JÁ PODE COMPRAR "10ENCANTOS" NA INTERNET


Siga o caminho: http://www.bubok.pt/livros/6897/10encantos

Autor: Soberano Canhanga
Estado: Público
Nº de páginas: 124
Tamanho: 150x210
Miolo: Preto e branco
Encadernação: Colado
Acabamento da capa: Brillo
ISBN Acabamento em capa mole com badanas: 978-989-20-3856-8
Livros vendidos: 51

Formato Preço
Acabamento em capa mole com badanas 9,90€ R$23,80
Impostos e envio não incluídos


A vida é feita de pequenos grandes nadas...
Encantos e desencantos, amores e desamores, da guerra e da paz.
E, paradoxalmente, quanto maior o drama da guerra, mais valor damos à paz!

 
Classificado como: Poesia   ›   Intimista
Palavras-chave:: Desencantos, Encantos, Esperança, Desilusão, Dor, Amor, Paz, Guerra, Angola
 

Saturday, February 01, 2014

CRUZES DE FEVEREIRO


As cruzes estarão cheias

Repletas de gente que não acredita

Nem embarca nas tácticas dos que querem vender

Cada vez mais à custa dos que acreditam em fadas

O mercantilismo está a virar as cabeças das pessoas

E a inventar modas que se tornam mundiais

Há, entretanto, os ateus,

Os incrédulos,

Os, que mesmo com a pressão mundial, preferem desligar-se

E emigrar, em datas como esta, para outros planetas

Ainda não infestados pela febre do consumismo

 
O 14 de Fevereiro é mais um resultado do mercantilismo

O objectivo não é amar mais ou menos amar 

É apenas vender...

Que chovam dilúvios de críticas

Que se quebrem os telhados

Que se esvoace a folhagem arbórea.

Que se apartem todos de mim, neste dia,
Eu não embarco
Eu não acredito!
 

Wednesday, January 01, 2014

GAIVOTA DE CHINGUAR

Preciso de voar
Como a gaivota do Chinguar
Que ginga e ginga no ar
Recordando intermináveis noites de luar

Preciso de repousar
Depois de teus caminhos conquistar
Comendo, bebendo sem muito gastar
Com direito a caviar

Peço que te aproximes,
Sem que cedo te apaixones
Para que não me aprisiones
Nestes teus gestos impressionantes

Peço que me ames apenas
Que não me partas as pernas
Tomando todo meu tempo
Ligando de tempo em tempo!

 
In: Amor sem Pudor
 

Sunday, December 01, 2013

SANTA LUZIA


Dia-a-dia, cobiçada baia

Embora vivendo de amor em dia

É terra com relva sempre vazia

Vargem que morre com a maresia

Santa Luzia, Grande baia

Em ti procurei alegria

Sempre que ao mar me fazia

Homens distantes, Luzia acolhia

De mim, entretanto, apenas se ria

Ó Santo Cabo, por que demoras penetrar esta baia?

In: Amor sem Pudor

Friday, November 01, 2013

CALDO DE AMOR


Andamos anos
Um compondo versos
Outro fazendo pedaços
Ela um poço de sede
Eu um rio sem mar

Um dia, nossos corpos involuntariamente se tocaram
Chamas há muito ocultas acenderam
Eu procurando mar para desaguar
Ela procurando água para sede saciar

Rolou o tempo
Sua sede transformada em fogo
Minh’água transformada em lago
Eu, um leão faminto
Ela, vitelo perdido
Como chave na fechadura, tomarmos um caldo!

In: Amor sem Pudor (no prelo)                                                   

Tuesday, October 01, 2013

TREPADA DE GALO

Rochedos salientes na savana delgada

Corre o cabrito, corre a vaca malhada

Correm homens, corre o gado

Rio abaixo no solo escavado 

Gotejos em tempo próprio

Corre água, corre leite com brio

Entre rochedos, no meio a cascata

Zurra a burra, descansa a vitela sensata

Sobe, desce pêndulo guiado a martelo

Corpo presente, na memória ausente o pesadelo

Na relva relincha o cavalo
No arbusto trepa o galo!

In: Amor sem Pudor
 

Wednesday, September 18, 2013

A TRIPLA DIMENSÃO DO(s) 10ENCANTOS DE SOBERANO CANHANGA

NOTA PRÉVIA DO AUTOR

O meu Sonho começado nos anos 90 e retomado com mais vigor com a abertura desta página vê-se realizado com a publicação do livro que traz o mesmo título deste Blog. Vamos caminhar, buscando agora atingir a forma e perfeição inatingidos no primeiro poemário. Siga-nos atento como o faz Nguimba Ngola.

AS TRÊS DIMENSÕES DO(s) 10ENCANTOS DE SOBERANO CANHANGA
Por: Nguimba Ngola
Setembro é o mês em que nasceu Agostinho Neto e, no dia 17, o nosso poeta transita. O povo lembra-se dele nas várias dimensões da sua vida, como poeta e político. Na Cidade Diamante, a cidade da Pedra Brilhante, Neto também foi lembrado. Várias foram as actividades.
Na manhã do dia 16, o anfiteatro da Escola Média Politécnica, transbordou literalmente de alunos. Sim. Plateia jovem ouve atentamente a governadora, Cândida Narciso, palestrando sobre Agostinho Neto. Em seguida, vem a apresentação do terceiro (O Sonho de Kaúia, Manongo-Nongo, 10encantos) livro do escritor Soberano Canhanga, jovem de Libolo, onde nasceu há 37 anos.
 
A mim, coube a missão, desnecessária (?), de apresentar o livro que, depois de alguma relutância, aceitei porquanto tinha sido indicada outra apresentadora que por motivos alheios não se fez presente.
Soberano é um dedicado “bloguista”. Tomei inicial contacto com seu texto poético no seu blog “10encantos” que é o título do mais recente livro publicado. Já na sua forma gráfica, cuja apresentação não deixa a desejar, peguei o “filhinho” do Soberano entre mãos, acariciei-o, senti-lhe o cheiro agradável, passeei brevemente nos textos, para constatar o modo de arrumação. Enquanto isso, a voz no microfone anunciava o nome Nguimba Ngola para tomar o lugar. Um friozinho toma conta de mim, é grande a responsabilidade, câmaras, olhares atentos expectantes da apresentação, “é o tio dos livros do tchilar…” ainda ouvi da plateia. Som e palavra é igual a poder. Ganhei o poder e comecei. Tirei partido da apresentação para o aconselhamento dos jovens sobe a importância da leitura. No final, as palmas. Ah, que alívio! Acabou, não é nada fácil falar ao público.
 
Já no aconchego dos lençóis, eis que meu anfitrião comunica que lhe foi pedido o texto da apresentação. Não o tinha. Apenas as notas rabiscadas em papel qual esboço orientador do pensamento. Um pequeno lap top foi-me entregue. Agora escreva o texto, disse-me Soberano Canhanga.
10encantos do Soberano

Analiso a poesia desencantada do Soberano em três dimensões: Dimensão textual, dimensão social e dimensão espiritual.
Os textos do Soberano se nos apresentam com uma estrutura externa não tradicional, não encontraremos formas fixas como o soneto. Sim. Os textos são desprovidos de métrica, impera porém o verso livre que deixa margens para maior criatividade e liberdade ao poeta.
Ainda assim, elementos poéticos básicos podem ser observados como a rima “Revejo/ num quarto agora vazio/ esse teu corpo tão esguio// Recrio/ emoções e amores loucos…/ voltam à vida aos poucos// Reencontro/ espalhados pelo chão/ roupas, beijos e paixão!” (in Sem medo, pg 85). O ritmo também confere beleza nos vários textos 10encantados. É sentir, por exemplo, “À fala com os meus botões” onde “tarda o sono/ nos sonhos a traição…” (pg 103), ou ainda “tórrida e sofrida/ minha pátria/ dorida…” (pg 53).
A linguagem poética, em muitos textos, torna-se expressiva pelo recurso de figuras e tropos e é assim que encontraremos “pretinha cor de nuvens”, “espertinha na quilometragem da idade”, “o sol já brinca no quintal”, “fustigai-vos ó ventos/ maltratai-vos ó águas/ façam-se remoinhos”, “no além da curva sanitária/ morre o sémen preguiçoso”.

A dimensão social dos poemas do Soberano Canhanga, reveste-se de textos, alguns dramáticos, porém apontado esperanças, “e sonhos de liberdade”. Sinto isso no poema “Êxodo” (pg 29). Quem não constata hoje, o drama nas vidas de muitos que “ontem/ na sanzala/ gente farta gritando/ canções alegres, intrépidas!”? E “Hoje/ na cidade/ gente magra/ esfarrapada/ entoa baladas tristes”… Profunda para todos, pois o contrário seria como diz o sujeito lírico do Soberano Canhanga apenas “paz podre” (pg 61), “paz sem perdão/ é tentar esquecer/ sem dar o braço a torcer/ não é paz, é podridão”.
Eis então que no que depender de todos nós, devemos buscar sempre a paz.
 
Sensível, o poeta, ante o drama da transição (morte), pede a que se chore a “mãe-grande”, mãe de seu “grande kota José Caetano”, “com prosa e poesia…// com pintura e escultura/ choremo-la com realidades e ficções/ choremo-la com ARTE!” (pg 33). São os 10encantos do poeta, desabafos e choros, “o mundo enfrentar/ sofrer (?)”.
O fenómeno prostituição também é motivo lírico pois pululam ao vento “kitata kuribeka”, que deixam suas tetas moribundas serem sugadas “no leito da morte”. Hoje é intensa a correria ao “álcool barrigudo” e, despudoradamente, vão “xaxatando nádegas flácidas” “mbunda ya kitadi”, “mbolo ya kizwa/ kufwa kidi!” (in Na cama de hotel, pg 18). O falante lírico vive intensamente suas paixões, descrevendo-as com nostalgia, rememorando sonhos e traições, e muitas vezes encantando-se com a beleza da(s) sua(s) amada(s).
Na dimensão espiritual, vejo o poeta convocar-nos para o cultivo. “Vinde e cultivai/ que é próprio o memento!” É o momento de amar verdadeiramente pois “ o nosso amor é a importância que nos atribuímos”. Todos aqueles que se furtarem ao verdadeiro amor devem perceber “que é chegada a ceifa” , “é chegado o julgamento/ do Cefeiro que chega à hora”, eis a infalível reintegração cósmica. O eu lírico confronta-se com a realidade mística “há vezes/ em que não sou eu quem age/ mas o oculto” (pg 44). Sim. É a inteligência universal comunicando.
Saurimo, 16.09.2013.

Sunday, September 01, 2013

FAIXA DE GAJA


Entre montanhas e a saia
Apenas savana e secura
Um túnel já sem distância
Ajuda quem por lá relaxa
Mais abaixo, a terra da promessa
Onde morre quem paus arremessa
Na vasta savana de relva escassa
Um bebedouro sedes aguça
Faixa da gaja
Entre montes gémeos e terra prometida
Caminho abaixo, a cova do umbigo
É entre saia e blusa!

In: "Amor sem Pudor"

Monday, August 05, 2013

AMOR A ZIGUE-ZAGUE

Assisti à compra do camião
Vi teu atrelado ser carregado
Também vi todo recheio ser roubado
Com o olhar saciei minha fome

Camião assaltado no tempo que corre
És hoje alimento para cães sem norte
Sede, tua, em aumento sem pudor
Resposta, minha, ausente um tormento.

In: "Amor sem pudor"

Thursday, July 04, 2013

FUKA YAMI (TERRA-MÃE)


 

Libolo

Inicialmente simples povoações

Básicas, sem estrelas, nem erudição,

Ordem e trabalho fizeram dela

Luzenta e admirada circunscrição

Orgulho desta Nação!

 

Monday, June 10, 2013

EU TENHO UM SONHO


> Que Saurimo será um centro de intelectualidade
> Que será uma candeia que irradiará sua luz a toda Angola
> Eu tenho um sonho
> Que as crianças que hoje assistem, sem opção, novelas brasileiras e
> mexicanas
> Distribuídas sem controlo, nem medição
> Venham a ser as mais cultas desta urbe
> Irradiando conhecimento à província e ao país
> Eu tenho um sonho
> Que desta pequena experiencia,
> O Núcleo de Amigos da Leitura e Literatura
> Nasça a árvore que alimentará a província e o país de luz e sabedoria.
> Eu tenho um sonho
> Que nunca mais a ignorância fará parte de nossas vivências
> Que a ciência e a razão serão nossas armas
> E nunca mais a razão da força e do ocultismo.
> Eu tenho um sonho...

> (Inspirado no "I have a dream" de M. Luther King Jr.)

Saturday, June 01, 2013

É HORA


Tocou a sineta

É o pássaro que está no cimo

Quem faz deslocar o sino

Cá dentro, outros sinos tocam em mim


É, desde sempre, minha sina:

Toca o sino no cimo da igreja

Sinos internos em mim pelejam

Wednesday, May 01, 2013

RESILIÊNCIA

Fez vendaval,
Apesar de caule brando,
A árvore não resvalou
Apenas folhas se soltaram e
Ramos levados pelo vento

Permaneceu hirto o tronco
Enraizado no solo másculo

Não foi desta vez!

Monday, April 01, 2013

BRIGADISTA

Mal o sol raiou
Manhã cedo intruso chegou
Sua má nova anunciou
Vulcão já em erupção mostrar seu clarão

Quem pega o intriguista-cão?
Que desgovernado ladra como vulcão?
Quem ao acusado julga com perfeição?
Quem ao condenado mais estende a mão?

Chegou a hora da verdade
Todos despidos de vaidades
Discursos directos, sem veleidades
Homem condenado depressa em liberdade
Dos intriguistas quem mais quer piedade?

Num campo dragões vomitam razões
Noutro razões idosas disputam acções
Voam cegonhas
Destapam-se vergonhas
Quebram-se silêncios
Rolam edifícios
Ossos do ofício?

Monday, March 11, 2013

ALMA SANGRENTA


Um tufão de dor varre meu corpo estropiado
Enqanto lavas de sangue atravessam minha alma mutilada
O corpo estropiado sara
Porém, minh' alma mutilada sangra sem cor, sem valor


Queria meu corpo perdoar
Não fosse esse esvair sem fim
Da vida a terminar
Como artista sem delfim

Neste sepulcro em que me encontro
Me convidas para de novo sorrir
Como nos dias em que teu calor senti
Mas já cá não mora o alento

Meu corpo de fogo viciado pede
É teu o afago mais quente
Mas minh´alma em lavas se despede
É outro o mundo que me percebe?

Morri
Apenas corpo presente
Já cá não mora quem sente
Só alma farrapo


Thursday, February 14, 2013

DEPOIS DO AMOR O AMOR


Cama quente

Briga ausente

Saudade disso quem não sente?

Uns apenas consentem

Intrigas e pelo meio presentes

Para manter calma a corrente

Outros ainda tocam vida prá frente

Ignorando pentes e serpentes

Mantendo Vida alegre

Frestas e ventos ao poeta trazem

Vídeos e escritos que traduzem

Quão bom é ter cama quente!

Friday, February 01, 2013

SOMBRA DE REALEZA


(À Rosa, enfermeira do HMP)

Pasmo
Rodeia almas estropiadas
Encurraladas por vontades seculares
Há uma sombra de realeza que espanta!

No rasgo da noite
Apenas silêncios recticentes
Enchendo corações de amores abstratos
É a tua sombra que encanta!

No além da curva sanitária
Morre o sêmen preguiçoso
Esvaziando o imaginário doentio
Apenas Rosa!

Luanda, 11.08.2000

Tuesday, January 01, 2013

AO HOMEM

Três caminhos apenas:

- Ignorar e esquecer
- Aturar e sofrer
- Partir e recomeçar

Um destes é meu!

25.02.2004

Saturday, December 01, 2012

AMAR É

- Caminhar
- desabafar
- chorar (?)
- ceder sem questionar
- sonhar
- dar e receber
- traçar sem tempo para realizar
- o mundo enfrentar...
- sofrer (?)
- para quando cumprir?

O nosso amor é a importância que nos atribuímos!

05.02.2004

Thursday, November 01, 2012

NA CAMA DE HOTEL


Sugando tetas moribundas duma kitata kuribeka

No leito da morte

Xaxatando nádegas flácidas do álcool barrigudo

Trágic´aventura dum incauto viajante

prostrado no prazer momentâneo


Na cama de hotel

Desfaz vida, assando castanhas em kifufutila mortuário

deixando na brasa sua longinqu´amada
 

Na cama de hotel, sonha enterrando sonhos

Mbunda ya kitadi

negócio de hoje

mbolo ya kizwa

Kufwa kidi!


É na cama de hotel


Luena, 28.09.2012

Monday, October 01, 2012

DESESPERO


Noite cálida e de esperança

Silêncio e só silêncio reina

Cá dentro dançam lobos

E sobre a banca é a luz dorminhoca que tilinta

É madrugada

 
Envergonhadas voam cegonhas

Enquanto lobos trespassam corações

No horizonte, raios apressados anunciam mais um dia sem dono

Revezam-se os sóis

Outro dia sem Esperança

 

Saturday, September 01, 2012

Mwana Pwo

Na grandeza do teu corpo
desnudado
Inspiro meu eu
esquelético
Pra te dizer
amor

Wednesday, August 01, 2012

DOR INGENTE

Doi saber que sou teu irmão,
mas te desprezei
saber que erraste
Mas no erro  insistimos

Doi saber que um dia de costas nos virámos
Que com armas nos matámos
Que escondidos nos traímos e apelos ignorámos
Saber que quase nos vendemos

Agora que acertamos,
Peço
Que me dês a mão
Refaçamos a Nação!

Monday, July 09, 2012

REGRESSO ANUNCIADO

Eu Parto

Teus olhos banhados de lágrimas
denunciam a dor da ausência
e o vazio que fica
Mas tenho certeza  de que volto, mãe!

Minha bagagem cheia de nada
anuncia a tristeza que carrego
nessa ida sem rumo
em busca da vida

Na dureza dessa jornada
descrevo nas cartas que não te envio
o desejo de reconquistar teu colo
quente e cansado de cacimbos centenários

Dizem-me que volto
apenas me escondem se por terra ou  pelo mar
Se pelo ar
Ou no caixão

Eu Volto

Tuesday, June 12, 2012

Tempo de nakas

É centro do kixibo (cacimbo)
O cieiro apresenta-se como desenhos dum artista sazonal
Mesmo assim o verdadeiro camponês não desarma

Manhã cedo,
À fogueira um tempinho,
Afugenta a preguiça e aguça a catana
Enxada ao ombro e parte
A naka aguarda por quem a desbrave
As sementes aguardam por quem as deita à terra
E lá vai ele
Friorento e Cambaleante
Confiante na colecta que há-de-vir
É tempo de nakas
Assim é entre Junho-Agosto
(no meu Libolo)

Thursday, May 24, 2012

CAMPO DE VENTO

Vinde e cultivai
Que é próprio o momento!

Chegais e dizeis
(Des)coisas habituais
Em promessas vossas
irrealizáveis no tempo

Vinde, dizeis e fazeis
que é chegada a ceifa
Preparais obras e palavras
Uma sem palavra
É chegado o julgamento
do Ceifeiro que chega à hora!

21.07.2004

Monday, April 02, 2012

KIFUFUTILA

Meu regaço é quente
Como sol de Setembro
Na pele de homem alheio
Friorento nas mil noites
Mal vividas dum amor
Agarrado n´argola e ninhada
Já sem suor nem valor

Sou amante
Fogo e lazer
Vozes loucas em horas poucas
Delírios satânicos
Corpos desejosos,
Andrajosos no caminhodo prazer
Esquecido na noite do alembamento

Sou a  amante
Amada, diamante, desalmada, paciente
Fogueira de macho reformado
Carente de novos gemidos
Sim, nós
Eu e ele
Cofre e tesouro!

Friday, March 02, 2012

ÊXODO

Ontem na sanzala
Vacas gordas vozeavam canções alegres e intrépidas
Da guerra que ressona ainda distante
Hoje na cidade
Esfarrapadas as mesmas vacas vozeiam tristes melodias
Ávidas de paz, pão e liberdade na lonjura das estrelas

Thursday, February 02, 2012

MARCHANDO

Sem cor, nem riqueza
Longa fila se cruza
Norte-Sul, Leste-Oeste

Canções alegres
Coros afinados
Um poema

Pás nas mãos
Escolas construir
Uma inovação

Machados afiados
Florestas desbravar
Mais alimentação

Monday, January 02, 2012

PAIXÃO ADULTA

Passeio,
Sempre que a saudade bate
pelo crepúsculo encontro

Tua imagem
sempre na mesma posição,
o mesmo sorriso luminoso

E no silêncio,
quase me gritam teus murmúrios prazerosos
Na calada da noite

Já sem sono,
pergunto para mim mesmo:
ílusão minha ou também sentes o que sinto?

Monday, December 12, 2011

DRAMA

Cinta sobre a cintura
Sujo-descalço
Ventre denunciado gravidez
Já no seu sétimo mês.
É miséria o devir

Ranho substituindo leite roubado
Lá vai o monandengue
Carregando cama-papelão
Mutilando sonhos na ponte-mansão
Diambula pela cidade sem paradeiro

Na noite escura do petróleo exportado
Na barriga-cheia dos homens do morro
Que sugam folhas como abelhas
Solta o grito:
- ai tio, me dá só cinquenta!

Friday, December 09, 2011

AIS!

Homens mandados na guerra
Lá enterrados na terra
Mulheres desoladas
Eternamente preocupadas
Sem pão p´ros chorões monandengues
Que aos gritos reclamam pais ausentes
Todos em ais clamando
Sem emprego
Sem formação
E eu também esperando minha vez
Para que a terra me coma de vez
Só choro também
Ai minha Angola!
25.05.1996

Tuesday, November 01, 2011

BURACO NEGRO

Entre terra e mar
Um tufão se forma dentro de mim
Buummm!
Pedaços meus espalhando essa dor inócua

Fustigai-vos óh ventos
Maltratai-vos óh águas
Façam-se remoinhos
Mas deixai-me espraiar-me neste sepulcro

Arrancai vossos corações impiedosos
Tocai vossas ngomas de ódio
Encham-se cabaças de fel
Mas deixa-me aqui escalando este cume

Sunday, October 09, 2011

CHORO INÚTIL DE MULHER

Por que choras mãe
Se dos que ontem partiram não há noticias de regresso?
Por que choras mulher
Se tuas lágrima de ontem ainda corre na savana
Por que lamentas velha Ngonga
Se de teus netos restam sacrifícios apenas
O meu irmão partiu
Não sei p´ra onde
À força
Acorrentado
Pontapeado seguiu para a guerra
O primo também partiu
Maltratado
Abandonou a escola
Qual ladrão para o carro jogado
É sargento agora
O sol passa
De lua em lua
Naquela trincheira do sul
Naquela cela do norte
Naquela mata do nordeste
Só trevas
Só trevas os rodeiam

Friday, September 09, 2011

MINH´ANGOLA

Tórrida e sofrida
Minha pátria
Dorida, martirizada
Minha terra
Amargurada e atormentada
Sem descanso
Sem paz
Sem água
Pão, alguém viu?
Sem puro oxigénio
Roubado de árvores estropiadas
Quem contou?
As bombas que matam homens
Os rios feitos de lágrimas
As bocas sedentas de tudo
Até quando?
O brotar de novas acácias
O rasgar do luto destes tempos
O sorrir despreocupado das crianças …

Saturday, August 06, 2011

AQUI ATÉ MORRER

Plantado na solidão e castigado sem apelo
Eis-me aqui neste canto
Olhando teu rasto passar
Sem palavras, nem presentes bonitos p´ra te dar.

Na rota contínua do sol
Quedando-se no azul do mar
Sempre aqui nesta cama, sonhando acordado
Vivendo a custa do sofrer e cantando versos ao léu!

Saturday, July 09, 2011

ÂNSIA DE AMAR

No teu colo frágil de mulher
Com quentura de ovelha
Minh´alma quer descanso
Em teus braços de trepadeira
Se estendendo da terra ao céu
Empurrando pr´o voo meu eu
Em tua boca mulheril
Louca e carnuda do beijo refractário
Pecaminosa como a maçã setembrina
Minha língua anseia habitar
E sentir o agridoce do teu beijo
Perdido nos olhares que se dispersam
No teu colo juvenil,
Frio no verão e quente no inverno
Minha mente quer repouso
E desfazer-se da virgindade
Que a timidez instalou em mim
É hora!

Thursday, June 09, 2011

CHEGA DE JURAS

Procurei-te
Teu cheiro nas pétalas não mais encontrei
Secou a flor
Com ela Sumiste como o vapor que se dilui no espaço
Assim era tão efémero teu amor
Mil vezes cantado ao ouvido surdo
Quantas juras prometidas?

Tuesday, May 31, 2011

MILDE HUMILDE MULHER

MILDE HUMILDE MULHER


É ela
Milde mulata monaputo
de pai fugido na corrida dos cravos
virando kitata afamada no Sueiro
Amigada com preTuga fubeiro


Viveu
ensinado arte antiga de xaxatagem
a kamabwins, meninos da kabunga



É ela, agora
Meiga humilde mulher
cantando velhos “nga dibeka kwá Jezú”
ou cosendo batas do caçula monandengwe
rasgadas no liceu empedrado

É ainda ela
varrenddo ruas da maratona emporcalhada,
assobiando tat´êtu kudyulo!

É minha sogra agora
de panos riscados
kassumbulados do estranja Kamará
e vendidos pelo muzangala da kangonha


É sempre a mesma
cuidando monandegwes trazidos
anos sim, anos sempre
pelos monas deseducados nos xaxatanços da mocidade
                          parte-bracista do tempo de kaprandanda

Conta agora
curvas e contra-curvas das apanha moedas
                                              de Cinco Réis!

E, de kaxexe, ganha juízo…

Thursday, April 07, 2011

SANGUE NA BICA D'ÁGUA

Sangue
salpicando sobre pedras
paridas num tempo esquecido
duras, ressequidas
carentes duma bica d'água

Sangue
entre corpos andrajosos
em viagem sem fim
num pobre atalho
abraçando orgasmos férteis

Sangue
entre gente humilde
regressada da saudade morta
noutra terra de peregrinação obrigatória

É natal
e jorra sangue na Bica d'água!

Monday, March 21, 2011

VENDAVAL

Escuso-me olhar aos ventos
que luzes carregam
derrubando grilhões

Tão pouco respiro silêncios heurísticos
impostos p'lo tormento do chicote
que amansa massas carentes

Recuso-me viver vida-prisão
asfixiada e suplicante
Carregai-me por isso oh ventos do norte!

Saturday, February 19, 2011

PARTIU A MÃE GRANDE*

Choremo-la com arte
Com a ngoma e dikanza
Lá nos altos Céus,
Onde Deus lhe reservou o merecido lugar,
Com certeza,
Gostará das obras boas de filhos e amigos
Choremo-la com prosa e poesia...
Com pintura e escultura
Choremo-la com realidades e ficções,

Choremo-la de verdade!


* Homenagem à doan Luzia mãe do meu grande Kota Caetano

Sunday, January 02, 2011

PULMÃO CARENTE

Quando o sol do amor bater tua porta
Aqui estarei
Sorvendo a saudade do teu aroma
Refugiado na imaginação dum dia sem história

Quando a porta do teu coração se abrir
Aqui estarei
Para teus olhos meu sorriso colorir
Na imensidão desta floresta sem fim

Quando o sol do amor em ti raiar
Aqui estarei
Mostrando a flor nascente aos ares norte-leste
Que enchem este pulmão carente!

Thursday, December 30, 2010

ÚLTIMO DESEJO

Hermes,
Meu amor,
Estou coberto de vermes
Nem que estajas morta
Cumpre meu desejo
Aproveito última oportunidade
Pousando-te na morgue
Fornecendo-te meu amor
Só para conter nossa dor

Monday, November 22, 2010

CORRIDA

Trepei montanhas ao encontro do sol
apenas o mar encontrei brotando sal
jovem, girei o mundo como girassol
adulto, voltei vestindo sisal
Chega de corrida!
Renuncio à partida