No chão varrido do terreiro aldeão,
Dormia ao sol a dádiva da leira;
Milho e café, jinguba e bom grão,
Em longa exposição costumeira;
Jacinto, ingénuo filho da razão,
Tomava a voz por lei verdadeira;
E ao verbo ouvido, franco na missão,
Curvava a alma simples e obreira.
Mandou-lhe a tia, em tom de direcção:
“Estende a garapa à luz primeira”;
E ele guardou no peito a instrução
Com zelo de noviço na carreira;
Ao ver do astro a régia ascensão,
Cumpriu sem mácula a ordem caseira;
Verteu no chão a doce infusão,
Qual chuva breve sobre a sementeira.
Sorveu-lhe o sol a líquida porção,
Sem deixar vestígio na barreira;
Voltou Mbwanga à pobre habitação
E achou vazia a rústica cabaçeira;
Bradou então, em funda aflição:
“Onde guardaste a bebida faceira?”
Responde o moço, sem perturbação:
“Levou-a o sol, em marcha feiticeira!”
Julgou o soba a singular questão,
Com voz pausada, grave e justiceira:
“Quem guia um menor na direcção
Deve falar de forma verdadeira;
Que a ordem turva gera confusão,
Qual névoa espessa sobre a cordilheira;
Não pesa a culpa sobre a condição
De quem obedece à fala alheia.”
(Adaptação da prosa ATURA-LITER-ATURA: O SOL E A GARAPA)
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