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Monday, August 14, 2017

NO CORAÇÃO DA KISAMA


Do Citembo, fino como agulha
Corre apressado, engolindo outros angolares até Ndondo
Já largo, adulto e pesado, caminho abaixo, vem ele
Kwanza desliza preguiçoso, pachorrento, de amor repleto
Cantam-lhe ao ouvido aves fartas e sedentas

Bátegas rochosas ou lodosas no convívio
Lá dentro, águas incromas, ngandu e kakusu em festa, fazendo-lhe amáveis cócegas
Ao som de pedras-batuque, ngoma da Kisama, ama suas gentes
E o Kwanza segue vagaroso, de estilo cheio até Luanda.
Paragem capital

Tuesday, July 25, 2017

À PEDRA

Cantam alegres
Sempre em grupo
Jovens casadas
Senhoras já preparadas
Moças cobiçadas
Todas prendadas
Viúvas e sengadas

Cantam e contam
Malambas de vidas
Estórias passadas
Problemas solucionados
Assuntos almofadados
Outros tantos exorcizados

E o martelo-pau
Curvo e afável
Contra o milho um lacrau
Tuc, tuc, tuc
"Quando fui moer o milho,
Julgava ser para consumo e negócio...
Serviu para casamento dele com outra!"

Lições passadas sobre a pedra
Onde o milho não resiste ao pau e pedra
E elas cantam o que pensam
Fazendo farinha com destreza!


Publicado no Jornal CULTURA de 31/07/2017

Friday, June 02, 2017

MÃE: MINHA INVISUAL

Não me vês
Mas pelo cheiro me tens
Seguindo a voz vens
Assim como a cega toupeira
Nos sentidos refinada
Minha alegria de volta
Quando netos à volta
Voltares a ouvir
E vais, a toa, sorrir
Casa tua, toda
Família tua, toda
Cerca-te à volta
E gritas solta
Lembrando meu grito
Primeiro!

Wednesday, May 17, 2017

QUE PESADELO!

Sinto cheiro a fumo carregado
E negro
Arde capim seco
No espaço que separa sentidos
A estrada é larga e famosa que conduz ao norte-centro-sul
Deitado na cama gelada de kasimbu, vejo
Montículos vários
- Campos de batata ao longo da rodovia?!
- Não!

Cumprimos o chamamento e juntámos areia
Homens de farda respeitada
Pás nos ombros,

Desafiam pedras
Cumprem dever e aguardam conclusão da jornada
Mais adiante,
Montículos espalhados na negrura do asfalto
E, de novo, o negro do fumo que brota do capinzal
- Incendiaram a relva?!
Grita o despertador
Desperto desesperado
Foi pesadelo!

Wednesday, March 01, 2017

(D)EVOLUÇÃO DISCURSIVA

Ela e o seu
Ele e a sua
Eles e os seus
Equação acabada e exclusiva

Ela: os nossos
Ele: os nossos
Em um se fundiram todos

A tua e os nossos
Os meus e a tua
Tu e a tua, p'ra rua
Equação desfeita na briga-da-noite

P'ra fora
Há rua que vos aguarda
Já!
 
 
SC 2014

Tuesday, February 14, 2017

AMOR NA LUA

(e o poeta de Kuteka)
- Filha, quero ama-la!
Quê
A mala?
Não me atrapalhes, tenho sono!
E por que não levas a mochila, no roupeiro?
- Eu disse que vou amar-te!
Já te disse, poeta, não me lixes!
Se vais a Marte ou à Lua, fala-me amanhã!

Sunday, January 08, 2017

TAMBI KU BATA

Uma névoa sobre os céus do Libolo
Cá abaixo apenas gritos
- Aníbal?!
Um manto sobre nossos olhos
- Anibal?!
Uma montanha mais curta
- Metros retirados ao nosso alpendre intelectual
Ainda ontem conversávamos
- Sobre Libolo e outras coisas nossas
Escureceu o céu
- Já não é nosso o Aníbal
Tomai conta dele, ó céus
- É já vosso o Aníbal!