Monday, August 01, 2016

ÀS VEZES

Apetece-me contar:
Quantas voltas dei para abraçar
Quantas lágrimas derramei para sorrir
Quantas lutas travei para me afirmar
Quantas solas consertei para beijar
Quantos passos recuei para pular
Às vezes
Apetece-me dizer:
- Filha, luta por mim,
Desforra as desgraças
Aproveita as venturas
Atola os petulantes
Mas é outro tempo...

Friday, June 03, 2016

À PRINCESA CANHANGA


Assim mesmo
Como amas as flores
Como abelhas mesmo...
Assim é esse amor

Paternal e imortal
Sempre presente
Mesmo na quilometragem da distância!

 
 

Sunday, May 01, 2016

CONTE(n)SÃO


 
Já fui locutor p'ra tua sede de notícias

Em tuas horas cultas fui poeta

Recitei Êça,

Camões e Vigário

Já fiz teatro,

Sátira e Comédia

Até colo emprestei

P'ra lágrimas que não provoquei

Chuva e frio enfrentei

P'ra te ver sorrir

P'ra saciar tuas fomes até exílio tentei

De repente,

Olho atento p'ro espelho,

Do cárcere me liberto

Reencontro-me e grito:

- Jamais!

Chega de patetices

Animador de tuas noites

Não sou mais!

Friday, April 01, 2016

DESAFIO

Descampado maltratado
Inertes comprados
Vezes várias surripiados
                          (à socapa)
Blocos que ergueram outros fogos
"Ó tio, ó tia, são alheios!"

Vieram homens
De braços firmes
Fortes e determinados
Barro e vargem movimentados
Cimento, pedra, ferro, suor
Não tarda
O mato ergue o rosto
Do descampado nova cara!

Tuesday, March 01, 2016

DIAS QUE CORREM

Gosto
De trabalhar
Adaptar-me a ambientes
                       quaisquer
Climas organizacionais
                      quaisquer
            quentes ou frios

Gostaria
De me não viciar,
               de novo
Remetendo-me ao trabalho e à madrinha solidão
                                                                 escrita
Meus melhores recantos
 Faltando de QVL

Monday, February 01, 2016

TORMENTO

É de manhã que mais sinto o tormento
Quando me liberto do ópio e do sono
Quando o pensador ligo
E ele, às voltas,
Vagueia, vagueia
Como canoa ancorada
Da qual se rema
Rema, rema, rema
Sem movimento
No mesmo lugar, eterno
E o pensador, em depressão,
Desiste de pensar
Mas o dia se aproxima
Há decisão a tomar,
Já tardia no calendário juliano
E ligo, de novo, o pensador
Que entra às voltas e desiste
Quanto tormento?!

Friday, January 01, 2016

GRITO RASTEIRO


Brigam herbívoros

Pelejam ébrios no capim rasteiro

Outrora levado ao estômago

Jaz pés, a baixo

Inútil, triturado

E brigam valentes

Poderosos no pensar

Vargem rasteira destroem sem cessar

Até que poeira apenas os cerca

É sede, é fome

Relva escassa,

Pisoteada ao gosto da rebeldia gratuita

Implora-se, suplica-se

Mas ela, relva fresquinha,

Verdinha, ressuscita noutra margem

Noutra vida parida da lassidão do tempo

E ressurgem sorrisos distantes

Enquanto herbívoros famintos padecem...

In Canções ao vento

Tuesday, December 01, 2015

MANO DÉCIMO





Mona-a-ngamba de nascença

Cedo procurou libertar-se

E conseguiu

Tempos depois

Na moda das tarrafas extra-bairrais

A mona-a-ngamba voltou sem ais

Agredido na honra

Espoliado no suor

Chifrado no sentimento

Jazz Mano Décimo

Ano dez no ralo

Refúgio no submundo é tenda

Há anos trocada pela mansão urbana

Cima a baixo percorre calçadão

E recupera o amigo papelão

Há anos substituído p'lo cómodo colchão

E sobrevive, Mano Décimo

Chifrudo

Sangrento

Esvaindo-se por todos poros

- Bebeu do veneno

Proclama a vilã

- Engordou a cobra com suor

Dispara condoída a irmã

Sem ópio que dor amortece

Nem frasco que tudo esquece

Vive e quase enlouquece

Mano Décimo caminha a leste

Do Kuteka à Irlanda

Carregando o peso do nada

E, aos poucos, desfalece,

Mano Décimo.


In Canções ao vento

Sunday, November 01, 2015

ELES

Aos magotes
Dias e noites
Fingem-se satisfeitos
Quando é outra
A dama de suas vidas
E trocam gritos por silêncios
Vociferantes
Sim
Silêncios como faca do talheiro
Na escuridão dos carcereiros
Na ignorância dos sensores
Na liberdade da palavra
Lançam vozes eternas
OS POETAS

Thursday, October 01, 2015

TUDO É DOR

Brigas frívolas
Silêncio abrigo
A saudade dos de casa
Das árvores, da Katumbu, do António e do Phande


Doi tudo
Pés, cabeça, abdómen e  cervical
Até a fome doi
Se me liberto da dor!