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Thursday, August 06, 2026

ASSOBIO

Oh, como anseio em letras saudosistas

Gravar o assobio que, em doce arcadismo,

Cortava a brisa em tardes de narciso,

Sem mágoas, só veludos e conquistas!


Quando irrompia, límpido, na praça

Do amigo — e eco, travesso, na fachada,

Anunciava a lírica jornada

De meninos sem trama nem desgraça.


E mais doce era ouvi-lo na vereda,

Sem fios, sem telas, sem pressa louca:

“Já cheguei, meu amor”, dizia a boca

Que assobiava à lua, leda e queda.


Ah, como o tempo, em seu rigor, roubou-me

Esse assobio que a alma ainda implora!

Pois hoje o celular, frio, devora

O som que, outrora, o peito namorava.


Permite, Musa, em versos noventistas,

Que eu fixe o assobio que, na puberdade,

Marcou tua alma com felicidade

E o dê, rimado, às páginas tão tristes.

Tuesday, July 21, 2026

O NOME DO PORVIR

Oh tempo, que em sombras se encobre,  

Eis que o porvir se anuncia em véus cerrados;  

O coração, trêmulo, recusa o alento,  

E a razão, contida, cala seus ardores.  


Renova-se o mundo em ciclos milenares,  

Mas perpetua-se o medo em tronos invisíveis;  

Mãos ocultas, de poder inaudito,  

Sufocam falas, extinguem rumores.  


Ninguém ousa, ninguém comenta,  

Que venha o futuro em passos de ferro;  

E o espírito, em luto, aguarda silente,  

O jugo da aurora que tarda em surgir.  


Oh destino, severo e inexorável,  

Que em tua marcha não conheces clemência;  

O homem, frágil, curva-se em silêncio,  

E o devir, sombrio, governa em temor. 

Friday, June 05, 2026

VILA DA MATA: A COR DA POBREZA

Na turva senda onde o povo jaz,  

A fome reina, o consolo se desfaz.  


Nos rostos ocos, a dor se revela,  

E a miséria, altiva, o mundo desvela.  

As casas frágeis, sem teto seguro,  

Guardam segredos de um viver obscuro.  


Porcos famintos buscam cheiro no ar,  

Cães vadios multiplicam o lugar.  

Infantes erram nas ruas sem guia,  

A infância perde-se em penúria fria.  


Enquanto os nobres, nos muros fechados,  

Vivem distantes, em palácios dourados.  

Só no sufrágio se encontram, afinal,  

Mas o castigo é do tutor infiel.

Saturday, May 30, 2026

CÂNTICO DE MAIO

Maio é tambor,  

Maio é fogo,  

Maio é rio que atravessa gerações.  


No dia 4, nasce Argemara Canhanga,  

aurora e promessa viva

Geração quarta da linhagem.  


A 11, ergue-se Luciano Delfim,  

Terceira geração

Filho que guarda a chama.  


No 13, floresce Maria Canhanga,  

Kilombo Ky’Etinu, raiz maior,  

mulher-mãe, árvore sagrada.  


E no 25, ecoa Kajila K’Elombo,  

Luciano Canhanga, voz griot da família,  

celebração da vida e da África.  


Maio é território Canhanga,  

calendário de afectos,  

constelação de nomes unidos pela mesma seiva [KilomboKy’Etinu].  


Quatro tempos,  

uma só história,  

um coro que canta eternidade.

Parabéns aos de Maio!

Wednesday, April 15, 2026

PORQUÊ TU, ADI?!

Porquê tu, ó Adi, de mármore e gelo,

Que em toda a vigília me deste o degredo,

No paço do sonho te fizeste braseiro,

E abrindo-te inteira, clamaste: “Eu te quero?!"


Fui eu o andejo, de viagem volvido, 

Sem carta, sem nova, de pó revestido. 

E tu, aparição no trilho do mercado, 

Fizeste do sol meio-dia pecado.


Roubei-te dos lábios o mel proibido, 

E tu mo tornaste em dobro, em gemido. 

De mãos atreladas, febris, delirantes, 

Ganhámos o leito em passos arquejantes.


Mentia a razão: “é só pensamento...” 

Mas logo os vestidos caíram ao vento. 

Da mesinha ao colchão, num salto lascivo, 

Morreu o recato, asceu o instintivo.


Gulosamente te sorvi os clamores, 

Entre ancas e coxas, colhi teus ardores. 

Teu ventre era forja, teu seio era chama, 

E eu, possuído, bradava teu nome na cama.


Com dentes e unhas riscávamos versos 

Na pele suada, em acordes perversos. 

Bebi-te os ais, o suor, o pecado, 

Té ver-te em espasmos, o corpo arqueado.


Mas súbita, a tormenta, madrasta do gozo, 

Rasgou-me dos sonhos o véu voluptuoso. 

Despertei em tormenta, de hastes erguidas, 

Com teu gosto na boca e as veias partidas.


Porquê tu, Adi,

Tão casta e negacionista, 

Me deste em morfeu tua flor desfolhada? 

Terminei o voo, porém vou condenado: 

Trago-te na carne, de fogo marcado.

Monday, March 09, 2026

SILÊNCIOS EM FUMAÇA

Caíram reis como folhas secas,

e o mundo, sentado na sombra,

aplaudiu o incêndio

sem notar que o vento mudava.

A verdade, teimosa,
é a árvore que resiste ao deserto;
e os povos, mesmo feridos,
ainda acendem as últimas lâmpadas
contra a noite que avança.

Hoje, um canto do mundo arde,
amanhã será outro 
O fogo nunca pergunta
de onde vem,
apenas para onde pode ir.

E o silêncio,
esse lobo de passos leves,
Já devora vozes
que deviam ser pontes.

No fim, não será o grito dos maus
que nos perderá,
mas a quietude dos que, podendo falar,
escolheram fechar a janela.

Thursday, February 26, 2026

TATU'ÓLYO!

Sonhei contigo, em passos leves de carinho

Brincávamos na tarde mansa, pelo mesmo caminho

Sob a chuva que caía como bênção demorada

E a esperança renascia, tímida, porém encantada 

Enquanto a noite se tecia no nosso ninho.


Quando o frio se apossou de nós, rente ao peito 

Fomos nos acoitar, buscando do amor o efeito

Entre lençóis imaculados, morada do nosso abrigo

Onde o silêncio fala, onde o sossego é amigo

E a madrugada nos encontra no mesmo leito. 

Thursday, January 22, 2026

UMA ROLA NA VIDEIRA


Temos videiras, temos uvas,

Tesouros da terra, riquezas suaves.

Temos sobras de pão e sementes,

Dons generosos, ofertas presentes.

Água que corre, silêncio e paz,

Frutos maduros que o tempo traz.

Esperam visitas, ternos instantes,

Amigos da casa, fiéis e constantes.

Thursday, July 31, 2025

DEPOIS DO VENDAVAL

Choremos os mortos

Lamentemos as atrocidades 

De toda a sorte

Curemos as feridas e

Acima de tudo, 

Reflitamos sobre o que nos faz mal

Comemoremos coisas boas

Boas apenas

Olhemos para frente 

Com arrependimento 

(pelos que _como nação_ devíamos ter feito melhor) e

Corrijamos tudo 

Quanto de errado nos atrasa 

(ainda mais)

Cada vez mais!

Sunday, July 06, 2025

BELO MONTE & PARAISO

Profano sacralizado

Roubo,

Violência toda

A toda dimensão

Desamor aceite

Tudo celebrado

Festa infindável na dor permanente

Belo Monte é Paraíso?!


Wednesday, June 04, 2025

PRESENT IN THE DISTANCE

In the escape of forbidden days

In adventures drawn by the wind

In secrets whispered in half-light

And in mischief that stole our laughter

Time slipped away...

The fluids of memory murmur

Every instant that was ours

Every shadow and every light

Lead me to you, relentless,

Even when I don't see you.

Monday, May 26, 2025

A PROPÓSITO DOS MEUS 51

Cada palavra, 

Cada frase,

Cada mensagem recebida,

Todas 

Plumas perfumadas de carinho

Merecem curta resposta:

Muit'obrigado!

Thursday, April 17, 2025

PRESENTE NA DISTÂNCIA

Na fuga dos dias proibidos  

Nas aventuras desenhadas pelo vento  

Nos segredos murmurados à meia-luz  

E nas travessuras que roubaram risos  

Escorreu o tempo...  

Os fluídos da memória sussurram  

Cada instante que foi nosso  

Cada sombra e cada luz  

Me levam a ti, incessante,  

Mesmo quando não te vejo.

Tuesday, March 25, 2025

LOST BOAT

It wanders,

On a wide and forgotten beach,

Beyond Maputo, 

It wanders


It wanders  

Under the wind that stretches.  

The lost boat wanders,  

In search of work,  

In a vast sea.  


It wanders,  

The forgotten boat of a hungry man,  

In search of scarce fish.  

It wanders,  


The damp wind  

From the wide Indian Ocean,  

Calling men to work.  

It wanders,  


The sleeping life in the boat,  

Lost in time!  


=

I had GOLD in the competition organized by TEATRO ARTI "Bringing art to life"

Friday, December 27, 2024

ANTÓNIO PINTO, SEMPRE!

Estou a plantar-te

Plantar-te-ei

Sempre

Para que continues a alegrar

E alimentar

Homens, pássaros, formigas desenhadoras e

Húmus para a terra ecológica 

Q'era tua amada

Estou a plantar-te

Na terra que amaste como ninguém 

E plantar-te-ei

Vezes mais

Para que te expandas

E connosco permaneças,

António Rosário Pinto,

Sempre!



Thursday, August 22, 2024

ARES DA LWANDA

Amo-te
Quando olho
10cartado
Tinta vencida
Pelo tempo verdugada no topo
Acasalam-se casebres
Mente minha
De ideias,
Calva
Quebram-se-me falanges
Na lwa q'anda invisível!

Sunday, June 30, 2024

BARCA PERDIDA

Vagueira,
Numa praia larga e esquecida,
Maputo afora, vagueia
Sob vento que se espreguiça
Vagueia canoa perdida
À procura de faina
Num mar extenso
Vagueia barca esquecida
Dum homem faminto
À procura de peixe que escasseia
Vagueia vento humedecido
Do largo Índico chamando homens à labuta
Vagueia vida adormecida na canoa
No tempo perdida!

Sunday, February 18, 2024

CIRCOALIMENTANDO

Repleto

Furioso

Pachorrento

Tudo arrasta

Nem mãe, nem madrasta

De tudo se aboleta

Até borboletas à Kyanda oferece

Sem que de ninguém cobre preces

É o Kwanza, na sua majestade!



Monday, November 27, 2023

CHOVE PAÍS ADENTRO

Que venha comida 

Dos rios fartura

Depois relva e caça

Que homens venham

Com ideias-máquinas e construam 

Estradas também!

Tuesday, August 29, 2023

O MAR

O mesmo Atlântico que nos banha

Abraça

Doces e salgadas piscinas

As mesmas

Que temos secas e rotas 

Em terras distantes do mar!